Cantada 609

609 – “Moro perto de onde estudo e ando uns 25 minutos a pé para chegar na faculdade. Mesmo vestida de calça e blusa, é raro haver um dia que não recebo uma ‘buzinadinha’ de motoqueiro ou um comentário masculino desagradável. Quando tenho certeza que é pra mim, não estou com medo e tenho para onde fugir ou para quem gritar, eu respondo: mando o ‘dedo do meio’ ou grito um palavrão. Sou sempre xingada de volta, a ‘mal educada’, afinal, era ‘só um elogio’. Ok, não preciso me aprofundar que todos já conhecem essa história. Porém um dia foi ‘especial’.  Passo sempre na frente de um terreno baldio, porém a rua é muito movimentada, nunca me preocupei em passar lá, o terreno é cercado e capinado. Alguns estacionam o carro lá, outro levam animais para comer o capim que há ali.  Passando de frente a esse tal terreno, sete horas da manhã, rua movimentada, ouvi duas ou mais vozes masculinas de lá me ‘elogiando’ com as palavras mais bizarras e incessantes. Meu sensor de estupro, aquele que a maioria das mulheres teve que desenvolver, me disse para dessa vez não responder, apenas ignorar. Continuei andando, olhando pra frente, tendo que enfrentar mais 50 metros para me livrar do terror. Percebendo que estavam sendo ignorados, os homens que me assediavam começaram a gritar mais alto e dizer características físicas minhas, para que eu tivesse ‘certeza’ de que era pra mim. Meu cabelo, cor da blusa, mochila. Percebendo que eu sequer olhava, eles começaram a atirar pedrinhas em mim. Isso mesmo, pedras, brita de construção civil. Atiraram oito pedras, eu contei. Uma atingiu um carro que passava, torci para o motorista descer do carro, brigar com os imbecis, mas o motorista não percebeu ou não quis reagir. Me subiu um ódio daqueles demônios, mas continuei andando, sem xingar, como se nada tivesse acontecendo.   Por alguns metros tive medo de estar sendo seguida, nunca olhei tanto para trás, mas ele não insistiram. Pensei em ligar para a polícia, afinal a rua estava com mais de 20 carros parados no trânsito, mas se muitos ali viram e não fizeram nada, quem dirá testemunhar a meu favor em um tribunal. Tive medo. A polícia ia ‘fichar’ os filhos da puta, mas por falta de testemunhas nada aconteceria com eles. Por outro lado, os caras viram o meu rosto, meu corpo, sabem que eu devo morar ali perto, estudo na UFMG e passo por ali todo dia. Não quis correr o risco. Por um momento me senti culpada por não ter coragem, deixar estupradores em potencial à solta. Logo percebi que a culpa não era minha.  Esse episódio aconteceu na Rua Boaventura, Belo Horizonte – MG, perto da faculdade Unifenas.”