toda hora ele encostava “sem querer” – 696

Um dilema realmente. Às vezes é difícil saber o quê fazer.  696 – “Machismo, Racismo e Xenofobia – O dia em que fui agredida da maneira mais ridícula  Agora que já se passou quase uma semana do ocorrido acho que me sinto mais à vontade para falar abertamente sobre o assunto.  Na sexta-feira passada um episódio de constrangimento e fúria tomou parte do meu dia, fui (mais uma vez) vítima de sacanagem machista. Sacanagem não é bem a palavra nesse caso. Para ser sincera ainda não encontrei uma que se encaixe no contexto.  Estava em uma fila de banco quando dois homens apareceram e ficaram atrás de mim. Eles falavam um dialeto africano que eu não compreendia, mas riam alto. Achei bem normal, até que senti a respiração quente de um deles quase no meu ombro.  Dei uns passos para frente, mas ele fez a mesma coisa. A fila andava, e o cara chegava cada vez mais perto. Olhei para trás em alguns momentos, fiz cara feia, bufei. Deixei claro que estava incomodada. Quando eu olhava, o cara ria e dizia algo para o outro, algo que eu não compreendia em palavras, mas com certeza sabia bem do que se tratava.  Olhava para o lado, havia dois seguranças no banco. Eles estavam de olho na fila. Fixei meus olhos neles, tentei mandar um recado.  No entanto, se chamasse os seguranças ou pedisse para que o sujeito se afastasse isso poderia causar um problema grave. O cara era negro, africano. Poderia alegar que “não sabia” que deveria manter uma distância maior. Ele pediria desculpas e ficaria tudo por isso mesmo, enquanto eu seria acusada e receberia olhares condenatórios por suposto racismo e xenofobia.  O receio de denunciar a situação chata me obrigou a suportar no mínimo 30 minutos desse cara fazendo gestos atrás de mim (que eu não sei quais eram, mas percebia que havia algo errado). Então optei por permanecer de lado na fila.  Duas das atendentes que estavam no caixa olharam e riram. Elas não sabiam o que estava acontecendo. Talvez ninguém ali tivesse percebido.  Mesmo de lado toda hora ele encostava “sem querer” na minha perna, no meu braço. Eu estava visivelmente incomodada, ele sabia e não se importava.  Continuou exercendo “seu poder”, imposição do seu sexo “macho”. Senti vontade de gritar,  não havia respeito por um espaço que era meu, o espaço do meu corpo!  Mesmo no caixa e enquanto era atendida me senti agredida. Agredida por me sentir mal dentro do banco, por ter sido desrespeitada daquela maneira. A atendente ria.  Ao sair percebi que o segurança também riu. Aqui no Brasil é assim. Você é estuprada com os olhos à luz do dia, o cara quase pula em cima e as pessoas acham engraçado. A vítima que se dane. Você, mulher, deveria se sentir lisonjeada por ter sido “cortejada” tão gentilmente pelo macho.  Voltei para casa transtornada. Durante duas horas procurei relaxar, tentei esquecer. Preparei um café da tarde, uma mesa linda cheia de frutas gostosas. Li um pouco, me distraí. Mas em momento algum pensei em deixar pra lá. Não dava, não dá.  Conversei com uma amiga a respeito. Ela é socióloga. “O que eles fizeram foi horrível, mas já pensou que deve ser normal no país deles os homens agirem assim com as mulheres?”  “Não! Aconteça o que acontecer no país deles, eles SABIAM que estavam me incomodando. Eles sabiam e não se importavam.”  É difícil aceitar que aqueles dois homens em momento algum se sentiram intimidados. Eles foram agressivos comigo. Enquanto estava na fila, fui obrigada a sentir a respiração do cara no meu cangote, era quase como um abuso físico. Quase, mas não era.  Se eu reclamasse, diriam: “você está sendo preconceituosa porque o cara é preto, porque não é brasileiro, se fosse um gringo australiano loiro de olhos azuis duvido que se incomodaria.”  Pois eu digo que me incomodaria. Qualquer um que fizesse o que aquele cara fez mereceria um escândalo. Um escândalo que não tive peito e nem coragem pra fazer porque vivemos num país hipócrita onde ninguém é machista, ninguém é racista, ninguém é xenófobo.”