Cantada 93

93 –   Parabéns pela iniciativa… E preciso compartilhar algo que me aconteceu quando tinha 15 anos.          Eu era do tipo “faz-tudo” e meu pai sempre me pedia pra comprar cigarros para ele quando tinha preguiça. Era um domingo, cerca de sete da noite, quando fui comprar os cigarros dele num trailer/bar perto da minha casa. Pedi ao senhor dono da venda uma carteira de cigarros e dei pra ele uma nota de cinquenta reais. Ele me entregou os cigarros e enquanto eu esperava pelo troco um cidadão repentinamente me virou, agarrou minha cintura e falou alguma coisa como “oi, gata”, não sei, não lembro, mas lembro do rosto dele tentando se aproximar do meu. Foi automático: Empurrei as mãos dele e saí correndo de lá, sem o troco. Fiquei rondando o barzinho sem saber como voltar lá, perguntei-me se deveria realmente deixar o troco pra lá… Mas seria injusto com meu pai, que ganhava pouco na época. Deixar o dinheiro dele lá porque um imbecil tinha me assustado? Não, não valia a pena, não valia o esforço do meu pai ser jogado no lixo por causa de um panaca. Lembro que fechei os olhos, respirei fundo, coloquei uma cara emburrada e voltei até a banca e falei “desculpa moço, eu deixei meu troco de cinquenta reais aqui porque fiquei muito assustada com um rapaz horroroso e mal educado.”. Pude ouvir chacotas e risos da mesa que ele estava – direcionadas pra ele – e pessoas rindo da situação em que eu tinha o colocado. Peguei meu troco e friamente fui embora.          O mais triste é que eu pensei no dinheiro do meu pai, e não em mim, pra enfrentar um cara que tinha me constrangido.  N.