com 12 anos e um shorts para esporte causava frissom – 1195

1195 – Nós temos a impressão de que somos imãs de tarados, mas acontece com TODAS as mulheres.

Com 12 anos, comecei a fazer aulas de vôlei, ia a pé e a caminhada durava cerca de 30 minutos para chegar ao local do treino. O que começou por amor ao esporte em poucas semanas se tornou um caminho perigoso e incômodo. Ainda não entendo porque motoqueiros paravam para mexer comigo, me deixando aterrorizada. Caminhoneiros buzinavam sem parar, motoristas quase pulavam do carro após buzinas insistentes e gritos como “que delícia hein”, “quer carona?”, “gostosaaaa”. 12 anos e um short para esporte pareciam causar todo esse frissom. Homens que poderiam ser meus irmãos, tios, pais, avós… e mesmo assim insistiam nessa rotina NOJENTA. Passamos a ir em grupo para o vôlei, nos encontrávamos em um ponto específico. Não porque era mais divertido ir em grupo, mas porque todos os caminhos e mesmo todas as meninas tinham a mesma história para contar. A solução era sempre ir com uma blusa mais larga, se arrumar menos. Mas mesmo assim continuava acontecendo e alguns homens achavam divertido correr atrás da gente, também. E confesso que hoje, 12 anos depois, esse tipo de coisa ainda acontece.

Infelizmente, a gente se acostuma com esse tipo de situação. Porque você ouve desde cedo que está SE colocando em risco ao escolher uma determinada roupa, maquiagem, penteado ou simplesmente pelo fato de ser do sexo feminino. Eu nunca entendi porque eu devia ser menos vaidosa para não atrair coisas que não queria dos homens. Mesmo assim, sem muita vaidade e tudo mais, continuou acontecendo.

O auge do meu emputecimento com a coisa foi quando até mesmo grávida, com uma barriga de 7 meses ainda ouvia na rua coisas como “nossa, que gravidinha! ainda dá pra meter gostoso”. Vocês acham que uma mulher de saco cheio dos efeitos do barrigão e dos hormônios loucos precisa ou quer ouvir algo do tipo? Mas não, as grávidas também parecem pedir para receber cantadas.

Já apanhei de um homem que tentou me ameaçar com uma faca para ir a algum “canto” com ele, após umas 3 cantadas frustradas e eu pedir educadamente que ele se afastasse. No centro de Belo Horizonte, às 21 h, com bastante gente na rua. Eu não estava pedindo, eu estava voltando de um dia de trabalho, indo para outra cidade e morrendo de saudade da minha filha. Na tentativa de fazer um B.O., sabem o que me foi dito? Que de nada adiantaria, pois o agressor era desconhecido.

Dois anos depois, uma surpresa. Uma situação muito semelhante ocorre de novo. Dessa vez eu usava uma saia até o pé, uma camiseta, voltava da faculdade e não correspondi a uma passada de mão. Não contente, o rapazinho tentou roubar a minha bolsa. Reagi, apanhei e não sei explicar como me senti. Mas sei explicar como me sinto hoje:

não consegui sair em nenhum dia de carnaval e ver meus amigos durante esse período. Não porque quero dar uma de intelectual por não gostar de carnaval, mas meu PAVOR de multidões se agravou depois desse último episódio. Pensar em uma multidão com homens alcoolizados se dirigindo a mim como se eu também quisesse fazer parte da festa pessoal deles me deixa enjoada.

Não tenho a mínima vontade de sair de casa, de caminhar 5 minutos para ir para a faculdade e ser chamada de “psiu”, “gostosa”, “meu anjo” e ser insistentemente chamada de “baranga” quando não correspondo. Ultimamente, meu medo de que algo aconteça com a minha filha tem tomado conta de mim também. Nessas últimas semanas a minha vontade de me mudar para algum lugar isolado aumentou, mas eu SEI que a localização não vai ser uma mudança impactante, porque eu SEI que o problema não está comigo.

Já fui chamada de fresca, ridícula, ingrata e adjetivos muito mais pesados pelo simples fato de REPUDIAR o jeito que homens me olham e se dirigem a mim. Inclusive quando estou acompanhada. Então, não me venham dizer que é instinto. É pura falta de educação. De noção. De empatia.

Grávidas, crianças, adolescentes, jovens, adultas, idosas e mulheres de todas as classes sociais são afetadas com esse tipo de comportamento nojento. A “patricinha fresca” merece porque é filha de papai e colocou silicone só para chamar a atenção. A “neguinha da comunidade” também merece porque usa shortinho e posta fotos em que não se dá ao respeito.

Uma dica: o respeito o outro merece independente da roupa que usa, das ideologias e de qualquer coisa. Não é a roupa ou atitude da mulher que VOCÊ considera desrespeitosa que dá o direito de dizer o que ela merece ou não. O que ela é ou deixa de ser. O que ela quer ou não. O respeito É BÁSICO e não é baseado no que religião, moral e hipocrisia definem.

O que eu quero dizer com tudo isso é: cantadas não são positivas e inofensivas. Elas enchem o saco, nos deixam acuadas e com medo de mandar quem as faz pra puta que pariu na maioria das vezes.

A dica é: mamães e papais, criem seus filhos para terem respeito com todas as pessoas no mundo, principalmente com as mulheres. Ensinem que o corpo alheio não é propriedade de ninguém, que as pessoas sabem o que gostam, o que querem e o que não querem. Uma certeza que tenho, é que ninguém quer ouvir o tanto que o outro a achou “gostosa” ou o quanto a “chuparia todinha”. Ensinem seus filhos a respeitarem as mulheres que são irmãs, filhas, netas, amigas e acima de tudo SERES HUMANOS. Explique desde cedo para seus filhos que assédio É SIM um tipo de violência. Vamos acabar com esse tipo de cultura em que a mulher precisa se privar de tudo – em alguns casos até mesmo da própria liberdade – para não despertar o pior dos homens (que muitos dizem que esse pior é o “natural”).

Eduquem as crianças desde cedo, para que não façam com ninguém aquilo pelo qual você com certeza odiaria passar.