começou a me culpar, como se fosse obrigação sair com ele – 1026

ESTE RELATO  merece uma atenção especial. É longo, mas é importantíssimo.

A maioria das pessoas tendem a não dar maior importância quando um rapaz insiste muito em um relacionamento, acham que é uma demonstração de que ele está ‘muito apaixonado’, quando na verdade o que ele está manifestando é vontade de dominar ao não aceitar o ‘não’ da menina. Indo mais além, esse tipo de relacionamento é que pode mais tarde evoluir para violência doméstica (não quer dizer que sempre vá acontecer, mas a probabilidade é grande). As pessoas ao redor tendem a sentir pena das demonstrações de sofrimento do rapaz e acabam insistindo para que a menina ‘dê uma chance’ a ele; se ela ceder fica muito mais difícil sair do círculo vicioso depois. Fica o alerta – prestem atenção aos sinais precoces de um relacionamento problemático e apóiem a menina quando ela demonstrar dúvidas e disser ‘não’.

*******************************************

1026 – “Eu o conheci por meio de um amigo, um amigo que agora percebi que não merecia tal denominação. Esse amigo falou que estava conversando comigo por sms e não poderia fazer alguma coisa para ele, ele por sua vez perguntou quem eu era, e meu perfil no face lhe foi apresentado. Ele quis me conhecer.

Não vou listar nomes, mas estou tendo dificuldades em contar a história usando só pronomes, por isso irei falar nomes que não condizem com a realidade.

Quando Marcos quis me conhecer, meu amigo, Leandro, decidiu dar meu número, mesmo que eu tivesse dito que não queria. Marcos começou a me mandar mensagens, eu respondia. Não via motivos para ignorá-lo, só não queria ter essa relação que ele procurava, de sairmos juntos e tudo mais. Paramos de falar por um tempo, Leandro ficava criando problemas entre a gente, dizendo coisas terríveis de Marcos e eu acreditei. Acreditei porque em quem confiava na época era em Leandro. Mas era mentira, senti-me mal por ter acreditado nessas mentiras e ignorado qualquer contato de Marcos, então aceitei sair com ele; para esse mal estar acabar. Nunca dava certo, alguém próximo de minha família morreu no dia; não havia como eu me deslocar para o encontro; coisas assim que eu não tinha como controlar.

Marcos começou a me culpar, como se fosse uma obrigação minha sair com ele, achava que na verdade era eu que não queria. Mesmo se eu não quisesse, seria tão errado assim rejeitá-lo? Mas não era nem isso, simplesmente não deu nas três ou quatro semanas seguintes que ele me chamou. Acabamos por brigar, paramos de nos falar. Tinha achado bom, não fazia sentido me desgastar só para o bel prazer dele ou por meu sentimento de culpa. Só que ele apareceu no final da minha aula, um dia qualquer, com amigos ao redor e me pediu em namoro. Todo mundo assistindo aquilo, com expectativas. Ele tendo saído de casa só para aquele fim. Aceitei na hora, uma burrada, eu sei. Só que me senti tão coagida, sentia como se eu devesse isso. Ao chegar em casa minha mente pesou, o que eu tinha feito? Nem gostava dele, não nutria nada, ele só me causava desconforto. Então no dia seguinte disse que não poderia continuar com aquilo e me abri, ele tentou me fazer mudar de ideia, mas foi inútil.

Paramos de nos falar, novamente.

Conheci outro cara, que realmente gostei, namoramos. Só que não deu certo, terminamos em dezembro do mesmo ano, ficamos juntos por poucos meses. Um amigo tentou chegar em mim nesse tempo, tentando se fazer de falas dizendo que eu deveria seguir em frente e que me ajudaria nisso. Ele não tinha nenhum interesse digno e eu não tinha a mínima paciência para sairmos, mas por algum motivo Marcos achou que estávamos. Começou a me mandar sms por um número diferente, mandou uma pessoa que eu não conhecia mandar, falando que esse amigo não prestava e que não poderia ficar com ele, se eu ficasse teria fama de “puta” e que ele achava que eu era “para casar”. Depois de algum tempo recebendo essas mensagens, descobri a origem. E pasmem, eu agradeci, falei que agradecia a preocupação mesmo sem sentido. Não pelo motivo de ter encarado isso como uma boa ação, como se fosse normal ter um cara te vigiando por trás, mas na época não pensei que ele estivesse realmente me vigiando. Não sei, não sei. Eu tinha 14 quando nos conhecemos, muito nova, e no final do ano tinha acabado de fazer 15. Posso dizer que levei na inocência.

Marcos continuava me mandando mensagens, por seu próprio número, mas dava em cima de mim constantemente e eu brigava por causa disso. Nunca tive nenhum interesse nele. Até que briguei de um modo forte, ele se “ofendeu” e de novo, paramos de nos falar. E o resto dos meses se seguia assim, se respondia suas mensagens dava em um briga por ele não aceitar minha vontade, e se não respondia todos ao redor me achavam esnobe e eu era coagida a responder. Era terrível.

Até que chegamos em julho do ano passado e ficamos na mesma sala de recuperação, ele se chegou em mim como de costume, porém dessa vez ele começou a se abrir. Não sei se ele tinha falado com alguém e descobriu que tenho um fraco em ajudar as pessoas, em ouvir, e se aproveitou disso. Começou a falar de sua família que era deveras problemática, que sua mãe o agredia física e mentalmente; que ela lhe quebrava louças nas costas e lhe atirava cera quente; que ela falava que preferia que ele não tivesse nascido e já que nasceu poderia morrer e queimar no inferno, enquanto o pai era submisso e aguentava tudo em segundo plano. Coisas absurdas, mas ele me contava isso às vezes rindo, eu não conseguia entender. Então ele me disse coisas mais profundas. A mãe lhe tocava em lugares que não eram para serem tocados, beijos que não deveriam acontecer. E o modo que falava, rindo, rindo com naturalidade, por vezes me fazendo pensar em complexo de Édipo. Ficava me perguntando a veracidade dos fatos que me contava e sei que não eram mentira, minha família conhecia a dele, falavam-me coisas intrigantes sobre os outros.

Com isso que ele dizia nos tornamos mais próximos, onde se resumia basicamente em ele procurar desabafar enquanto chorava e eu ouvia. Ele me chamou para sair, eu não estava muito à vontade com ideia, mas ele estava me procurando há um ano, sofrendo em casa, então saímos. Isso no final de agosto. Posso resumir que foi péssimo, terrível.

Já estava esperando que ele tentasse me beijar e isso aconteceu, mas na hora parecia que ele estava nervoso ou então completamente incontido. Ele se jogava para cima de mim, empurrando-me na cadeira do cinema, tive a impressão que ele queria me deitar ali. Tentei afastá-lo sem sucesso, pensei que ele poderia ter pensado que eu somente estava querendo ar e deu uma brecha mínima. Coloquei minhas duas mãos no seu rosto e o empurrei com toda minha força. Fiquei uns segundos olhando-o assustada, sem reação. Senti que tinha saliva até no queixo e ponta do nariz, acabei por sentir que ele tinha machucado meu lábio com o aparelho. E disse isso, disse “você me machucou”. Ele colocou a mão no meu rosto, tentando procurar o ferimento; eu o afastei, irritada. Nisso ele me puxou para si, abraçou-me e começou a chorar.

Chorou quase soluçando.

Fiquei ali parada sem saber o que fazer ou dizer enquanto o ouvia falar que eu voltaria com meu antigo ex porque ele usava aparelho e não me machucava. Veja, voltar com um ex de um ano atrás porque ele não me machucava. Começou a pedir para eu jurar que não o deixaria por causa disso, que eu não poderia deixá-lo. Na hora, comigo praticamente presa com ele me segurando, falei somente que tudo ia ficar bem. Tentei assistir ao resto do filme, minha cabeça rodando com tudo aquilo.

Por que eu estava ali? Por que ficar com esse cara simplesmente louco só porque ele quer? Não me sentia bem com aquilo, estava começando a sentir medo além do peso de ser posta como porto seguro. Ele me tratava como único sentido de sua vida, como a solução de todos seus problemas; falava em casar, ter filhos. E eu com somente quinze anos, ele também com a mesma idade. Acabamos por nos despedir, ele tentou me beijar novamente, mas fiquei tremendo só com a ideia de fazê-lo e não aceitei. Fui para casa dizendo que nunca poderia sair com ele novamente, eu estava acabada por causa de alguém de quem não gostava; alguém que me sugava; que praticamente me usava. No caminho de casa, dentro do carro, ele me mandou várias mensagens. Todas pedindo desculpas, que sentia muito, que eu não poderia deixá-lo, que ele não se imaginava sem mim. Quando cheguei em casa respondi dizendo que não sairia mais, que não poderia ser esse tipo de pessoa, e que se ele quisesse poderia lhe servir de amiga. Ele ficou louco. Começou a dizer que nunca me usava como solução de nada, que me contava por contar, que se chorava por isso era pela importância que eu tinha, que eu não poderia fazer isso, que eu iria me arrepender, que eu iria ver as consequências dessa minha decisão, que ele sempre estaria ali. Passou-me todos os seus pensamentos e eu fiquei com medo, muito medo. Não consegui mais responder, mas ele mandou mensagens dizendo a mesma coisa até o dia seguinte, eu continuando sem responder.

Estávamos na mesma escola (esse ano estarei em outra e isso já era o plano antes mesmo de ocorrer isso com ele), e eu sentia medo quando nos cruzávamos pelos corredores no horário do esporte. Eu pedia para ser acompanhada, contei toda a história para um amigo e ele me deixava na sala do esporte todo dia, enquanto Marcos ficava me encarando na porta da sua própria sala. Ou quando o esporte acabava, eu tinha que esperar minhas amigas e não sair do lado delas, porque ele ficava sentada no banco me encarando. Sentia muito medo, pânico, e ninguém dava muita importância a isso, só me falavam para tomar cuidado. O melhor apoio que consegui foi desse meu amigo, meu melhor amigo, que me acompanhava e encara essa situação toda como louca. Dizia para nunca mais falar com ele, que era perigoso, e os outros dizendo que era exagero; faziam piadinhas.

Marcos começou a falar coisas sobre mim no turno que estudava, estudo de tarde e ele de manhã. Começou a dizer que tínhamos parado de sair porque eu estava com outro cara, que eu era uma vadia, uma vagabunda, que enrolava todo mundo; enganava e usava. Não assumiu suas ações em nenhum instante, não disse a realidade para ninguém, ficou mentindo descaradamente. Seus amigos me olhavam com raiva, as pessoas tinham raiva de mim. Ao menos eu era defendida pelos meus. Só que chegou a um ponto que não consegui lidar com isso calada, decidi procurar a melhor amiga de Marcos e contar toda a história; todos os problemas dele. Sei que pode parecer estranho, falar com alguém que deveria lhe odiar também, mas ela me ouviu e foi uma ótima pessoa. Ela acreditou em mim, disse que minha história era a mesma dele só que com mais detalhes. Detalhes importantes. Ela me apoiou e disse para tentar falar com ele, esclarecer o que eu achava que tinha que ser esclarecido e assim ele poderia parar com tudo aquilo.

Procurei Marcos para nada, ele não entendeu, ficou irritado.

Decidi deixar para lá e seguir em frente. Já estava em novembro, mês do meu aniversário, meus amigos fizeram uma festa surpresa para os meus 16 anos numa pizzaria. Cheguei levando um susto, fiquei com um sorriso de orelha a orelha, saí falando com todos na mesa e, ao chegar em uma pessoa, vi que Marcos estava na mesa em frente me encarando. Fiquei sem chão, ele me olhava com ódio. Rodei a mesa até o meu melhor amigo perguntando o que era isso, ele disse que alguém tinha falado para ele e que ele queria entrar e sentar com todos; era esse seu plano inicial, mas que uma amiga minha brigou com ele perguntando se ele estava louco de tentar isso. Fiquei pasma, mesmo depois de eu ter dito que tinha medo dele pra o próprio, ainda queria sentar na mesma mesa que eu. Lembro que ele disse que queria passar o meu aniversário comigo e ele conseguiu, na mesa em frente, encarando-me com ódio.

Queria que as pessoas levassem a sério isso desde o início, não pensar que um cara adolescente é só um garotinho e falem que é puro exagero meu. Ele próprio disse que eu estava fantasiando coisas, mas sei que não é. Isso não é normal, não é para ser. Consegui ignorar isso, meu aniversário conseguiu ser um momento alegre para mim. Estou dizendo isso agora porque tenho falado com um cara, um ótimo cara; com os mesmos pensamentos e ideologias que eu, mas não consigo confiar plenamente. Não consigo. Não consigo ignorar o sentimento que cresceu em mim de que todos vão me perseguir, vão me usar e vão ser loucos. Ignoro a pessoa que ele é, mas não consigo ignorar o que ele deixou. Puro medo.