começou como uma cantada e escalonou para algo muito pior – 827

[TRIGGER WARNING – Relato de violência e estupro]827 – “O relato que farei a seguir começou como uma cantada e escalonou para algo muito pior. É uma história longa e que infelizmente, pode revirar o estômago de muitas leitoras. Peço desculpas por qualquer inconveniente.Primeiramente, vou me apresentar como Polaca, por razões de segurança e receio de expor algo tão traumático, ainda prefiro me manter anônima.

A história se passou em novembro de 2001, eu estava com 13 anos.

Estávamos em setembro ainda. Morava em uma área um pouco afastada de Passo Fundo (RS) mas, mesmo assim ia para casa a pé todos os dias depois da aula. Minha irmã, namorava escondido um guri que morava no centro, ela tinha 17 anos e ele 21 e nosso pai (um polonês hiper-rígido e conservador, dizia que “filha dele tinha de ser moça direita que só ia namorar depois dos 21”) por isso, tudo era feito secretamente. Eu diferente dela, não tinha vontade em namorar, mas, tinha estilo gótico, que irritava muito o meu pai.

Um dia quando voltava para casa, um marmanjo passou buzinando para mim me chamando de “delicinha”. Mostrei o dedo do meio para ele e chamei-o de “filho da puta” várias vezes. Ele foi diminuindo a velocidade e disse para entrar no carro que ia me chupar todinha. Mostrei o dedo do meio de novo e disse que ele não ia pegar nem resfriado. Ele ficou muito irritado e só não fez nada porque tinham outras pessoas circulando pela estradinha de terra naquela hora. Cheguei em casa me sentindo toda-poderosa. Essa cena se repetiu algumas vezes em setembro. Já tinha uma resposta na ponta da língua toda vez que me deparava com ele naquele trecho.

Quando novembro se aproximou, minha irmã me convidou para ir no aniversário dela que segundo ela seria na casa de uma das amigas dela. Mas, ela mentiu para o nosso pai deixar ela sair, porque na verdade era uma festa na casa do namoradinho dela.
Chegamos na casa dele e qual foi a minha surpresa ao ver que quem nos recebeu foi o mesmo guri que buzinou para mim! Ele cumprimentou minha irmã pelo aniversário dela e me olhava de uma maneira que me deixou morrendo de nojo durante boa parte da festa. Descobri depois que ele era primo do namoradinho da minha irmã. Ele nem morava em Passo Fundo, era de Santa Rosa e só aparecia por lá quando ia fazer camping com o primo. Me seguiu até quando fui no banheiro e várias vezes quando parei para me servir na cozinha ele tentava ficar atrás de mim e sussurrava no meu ouvido “Não pense que esqueci de você…ainda vou te chupar todinha”. Fiquei muito irritada e implorei para ir para casa. Minha irmã me ignorou e foi curtir a festa. Nunca me senti tão desconfortável. Rodeada de pessoas mais velhas do que eu, muitos bêbados e que tinham usado drogas.

Decidi ir para casa sozinha. Já não agüentava mais aquilo. Não estava tão tarde na hora em que decidi sair, devia ser umas 7 da noite, em menos de 40 minutos estaria em casa.
Saí da casa e fui andando. Quando cheguei na estradinha de terra vi que tinha alguém me seguindo…fui ver e era ele! Outra vez e dentro do carro, reduzindo a velocidade.
Me perguntou:
-Quer uma carona?
Ignorei. Segui andando com a cabeça baixa. Ele continuou me seguindo.
Não tinha ninguém naquela hora e já estava ficando escuro.
Apertei o passo, mas, não serviu de absolutamente nada.
Ele parou e desceu do carro. Antes que eu pudesse correr e ganhar velocidade, ele me acertou um soco no rosto. Caí no chão. Por pouco não desmaiei de dor.
Ele me levou pra dentro do carro e quando tentei abrir a porta, desesperada. Ele apontou uma faca para o meu pescoço, dessas que se usa para caça e pesca, e disse, com uma raiva que não consigo descrever nos olhos:
-Se você gritar, morre.
Chorei durante todo o percurso, apavorada, desesperada, pedindo perdão por ter sido tão rude com ele mas, ele não me ouviu. Disse que tinha um presente pra mim…
Quanto mais nos afastávamos, mais eu achava que ia morrer…
Chegamos em um sítio que ele tinha as chaves e que estava vazio.
Ele tirou uma mala do carro e me levou para dentro do sítio para uma espécie de depósito, o tempo todo com a faca apontada para as minhas costas.
Assim que entramos no depósito ele rasgou minhas roupas com a faca de caça e amarrou os meus pulsos com uma corda.
Bem…o pior veio depois.
Eu era virgem na época. A dor foi indescritível, horrível, insuportável. O tempo todo com a faca apontada para o meu pescoço.
Como se não bastasse ele quase quebrou minha mandíbula a socos, disse coisas que prefiro não reproduzir aqui. Não contente, chegou a me cortar com a faca (tanto que tenho cicatrizes na minha intimidade e próximas dos meus seios até hoje) e esfregou sal de cozinha nos meus olhos (porque queria que eu olhasse para ele). Tive muita sorte em não ter ficado cega ou de ter seqüelas na visão.

Quando terminou, ele me ameaçou, disse que se eu contasse para alguém ia matar minha família toda. Começando por minha irmã e depois por minha mãe. Eu me vesti com uns trapos que estavam no depósito e ele me deixou a alguns metros da minha casa, fazendo piadinhas e falando que “foi maravilhoso”.

Descobri que tinham se passado quase 6 horas desde que tinha sido sequestrada até a hora que ele me soltou. Minha mãe estava desesperada, tinha até pedido ajuda para a vizinha. Falava português muito mal e não sabia como reportar o meu desaparecimento. Ela ficou apavorada quando me viu vestindo trapos e com o rosto todo machucado. Inventei alguma lorota sobre uma briguinha na festa e sobre um “acidente” e fui levada para o hospital imediatamente. Tomei todo o cuidado do mundo para não contar o que tinha acontecido de fato, e a médica nem se importou. Ouvi bronca do meu pai mas, pela primeira vez, não me importei.

Em dezembro de 2001, na semana do Natal, minha menstruação não desceu, como era esperado. Comecei a me desesperar. Comprei um teste de gravidez e vi que estava grávida. Não pensei duas vezes, procurei alguém que me ajudasse a dar um jeito. A clínica (ou abatedouro) em que realizei o aborto me rendeu uma infecção de útero. E fui obrigada a contar para os meus pais o que tinha acontecido, sem nunca mencionar o nome dele.

Para minha angústia, meu pai me chamou de “vagabunda” várias vezes dizendo que eu tinha gostado do estupro, disse que era culpa minha por ficar brincando de gótica e por isso não tinha falado nada e minha irmã disse que isso era um pretexto para separá-la do namorado. Minha mãe acreditou em mim mas, se deixou envenenar pelos dois.

Fugi de casa para nunca mais voltar. Mudei para a casa de uma tia-avó em Criciúma e vivi lá até completar o ensino médio e começar a estudar e trabalhar.

Recuperei recentemente o contato com meus pais e minha irmã, que me pediram perdão pela forma como me trataram mas, as feridas do meu coração jamais irão se cicatrizar.
Como nunca denunciei o que me aconteceu, fica o temor de que outras moças tenham vivido o mesmo horror que eu vivi naquela noite.”