desde criança evitei shorts, saias e vestidos – 1210

1210 – Eu sou do interior da Bahia e recentemente me mudei para Salvador. Sempre tive uma auto-estima mediana, nunca me achei linda, mas também nunca deixei de sofrer assédios. Nota-se, que no fim das contas, não é por ser bonita que a mulher sofre assédio. É por ser mulher. Mas voltando: desde criança evitei shorts, saias e vestidos. Depois de mocinha, o primeiro vestido que usei foi aos 16 anos e ainda hoje uso pouco e tento me acostumar. Tudo isso porque ao sair na vizinhança, sempre tinha alguém disposto a dizer “olha o shortinho dela, hmm” ou um molequinho de bicicleta pronto a me perseguir até a entrada do mercado.

Minha mãe e minha avó me ensinaram: use sutiã o tempo todo, não use shortinho, fique sempre quieta, e essas coisas pra tentar evitar a abordagem.

Sempre me senti tão coagida que até hoje, pra ir em qualquer lugar, mesmo que nem desça do carro, troco a “roupa de casa” (shortinho, blusinhas, vestidinhos) pela “roupa de sair” (alguma bermuda, calça, blusas ‘comportadas’). Uma blusa com o mínimo de decote já é motivo.

Ao sair na minha cidade, acontecia os “ei” que a gente já sabe que se olhar pro cara sem querer, ele vai dizer a maior “escrotagem” e eu ficava imaginando como seria aqui em Salvador. Não deu em outra. As 17h, saí do trabalho e fui pro ponto de ônibus que é em frente. Nestas ocasiões (sempre a pior) tento ficar meio invisível, pequena (já não bastasse estar vestida com calça jeans folgada, blusa simples, tênis). É tão triste saber que muitas de nós passam por isso: preferem sentir-se diminutas, porém seguras. Mas mesmo assim, um cara tava atrás de mim me “comendo com os olhos”, então fui mais pra trás e fiquei encostada na parede, abraçando a bolsa. E um outro, enquanto esperava pra entrar num ônibus me disse “boa tarde”. Mas não foi o boa tarde do senhor da guarita do prédio pra quem pedi informação, foi um boa tarde nojento, asqueroso, invasivo. Eu fiquei mais triste do que em todas as vezes e passei o resto do tempo de cabeça baixa, sabendo que ele me observava. Queria que um buraco se abrisse sob meus pés para que eu sumisse dali, e tudo isso por um “boa tarde”. O assédio velado é pior de todos. Ele vem mascarado agora de educação e simpatia, para tentar nos impossibilitar de reclamar, com a justificativa “foi um cumprimento!”. Eu fico deprimida só de pensar que daqui a algumas horas vou sair na rua e encarar qualquer comportamento desse novamente. E não é porque sou uma chata, uma encalhada, uma sem graça, etc; eu não acho que o homem não possa olhar (olhar e não quebrar o pescoço e girar o corpo junto, seguindo os passos da moça, como um senhor estava fazendo outro dia no ponto de ônibus pra qualquer uma que passasse) e não acho que ele não possa comentar com um amigo “aquela era uma gata”, porque as mulheres também olham (e estamos aprendendo a olhar não tão discretamente -direitos iguais) e também comentam com as amigas. Mas existem os “já comi”, “já peguei”, “essa eu lambia toda”, que devem ficar em mente até que se aprenda que não somos uma coxinha que saiu do balcão para as ruas.

P.S.: Também achei enorme, não sei se os depoimentos no site foram originalmente tão pequenos kkkk, mas sintam-se à vontade para diminuí-lo.

Grande beijo, estamos juntas nessa.

E é isso. Só tenho a acrescentar que ao mesmo tempo que parece que o movimento cresce, também parece que somos mais repreendidas. Porque existem ainda as mulheres que não entendem, as mulheres que foram robotizadas a achar normal, as mulheres que gostam e os homens (que só se dividem em alguns ao nosso lado e o resto). Tento mostrar a todos a importância e a história do feminismo, mas sinceramente, algo me diz que pouco vai mudar. Talvez, daqui 10 anos, poderemos ver poucos casos de assédio. Em 10 anos não ter nenhum seria muita evolução para pouca humanidade.