Desde muito nova já era muito assediada – 797

797 – “Não é exatamente uma cantada, mas um desabafo.
Desde muito nova já era muito assediada – era do tipo “mignon”, cabelos longos, rosto inocente. Comecei a trabalhar com 18 anos, entrei na faculdade na mesma idade.
Hoje estou com 40 anos, não sou mais assim, mas ainda me sinto em situações semelhantes, às vezes.
Quando fui tirar carteira de motorista, o instrutor sempre “esbarrava sem querer” nos meus seios, prá ver se estacionei direito, fechar a porta, essas coisas.
Quando comecei a trabalhar em um banco, era um “PAB” (posto de atendimento bancário), ou seja: um ambiente apertado, pequeno. O gerente sempre se esfregava em mim indo de um lado para outro dentro do local de trabalho. Fora as “esbarradinhas sem querer”.
Isso se repetiu muitas vezes em minha vida; professores, academia, até médicos. Qquer lugar. E eu sempre me senti extremamente inadequada e incomodada, pois eu não sabia se havia feito alguma coisa prá “dar essa liberdade” e tinha medo de falar alguma coisa e o cara me xingar de “paranóica, louca, você nem tá com essa bola toda”, como a gente sabe que acontece.
Por várias vezes fiquei sozinha no banco, só com o gerente lá, fazendo fechamento de caixa, esperando o maloteiro passar… Bom, não sei como é hoje, mas ha 20 anos atrás, onde eu trabalhava, era assim.
Acabei me casando com um “brucutu”, um cara extremamente machista, o que só vejo agora, que me separei. Mas eu achava que ele, sendo o “machão” que era, ia me “proteger” desse tipo de situação. (Claro que não foi só isso, eu achava que gostava muito dele, mas hoje, lendo mais, estudando mais, me tornando mais engajada, descobri que as coisas não eram bem o que eu achava…). Até que dois PMs me cantaram na frente dele, e deu o maior quiproquo. Tenho o BO até hoje.
Ainda hoje me sinto incomodada com esse tipo de cantada. A cantada nojenta, escrachada, eu apenas passo séria e ignoro. Os caras xingam. Tenho um amigo de São Paulo que diz que acha isso muito estranho, pois em SP ninguém mexe com ninguém na rua, pelo menos ele não vê. Eu não sei. Sou de Minas, e aqui eu acho isso bastante comum, acontece pelo menos uma vez por dia.
Que fique claro que não sou bonita nem uso roupas provocantes nem nada (olha o pensamento machista… mas o mundo é assim, né?!), mas parece que aqui é um hábito, acontece muito. E não tô falando em “porta de construção” não. É na rua mesmo, caras comuns, de todo tipo.
As cantadas que são “camufladas” ainda me deixam confusa. Eu não sei muito bem como reagir. Normalmente me afasto da pessoa se desconfio que isso é o que está acontecendo. às vezes um velhinho me dá bom dia na rua e eu penso: “oh, um velhinho!…” e respondo ‘bom dia’. Depois vejo uma cara de sacana. Até outro dia que uma amiga me falou: “Fala sério, vc acha que iam dar bom dia prá minha avó?” Daí eu pensei que faz sentido.
Isso é constante: saio muito com minha filha, com a minha cachorra, e sempre tem um zé mané prá fazer uma piadinha, um comentário… minha filha já vê isso com 8 anos.
Não sei como educar ou o que dizer para minha filha: não quero que ela tenha “medo” de homens, mas tenho achado os homens todos tão… “animais”, sei lá. Quero que ela saiba se defender, inclusive psicologicamente – pois no judô ela já está.
Sou por natureza uma pessoa que gosta de conversar e interagir com outras – mas isso não quer dizer que estou “dando bola” prá ninguém. Acabo chegando à conclusão que temos que sair na rua e ignorar as pessoas e o mundo ao seu redor.
Bom, era isso. Só um desabafo.”