disse que “eu tinha um jeitinho” [relato masculino] – 978

978 – Oi, eu sempre passo por aqui e penso em deixar o meu relato, mas eu nunca deixo – eu fico apreensivo, penso que é desnecessário, enfim, arranjo mil desculpas para não deixar o meu caso. Agora eu estou reunindo a minha coragem para contar essa história, que provavelmente só eu me lembro.

Para quem não está me vendo, eu não sou o ‘público-alvo’ do grupo de contadores de casos da página, porque sou um homem. Por isso, garotas, eu gostaria de dizer, primeiramente, que, apesar de não partilhar desses medos da vida cotidiana, eu consigo entender (minimamente) o que vocês passam. Peço desculpas aos idiotas da parcela masculina da população que causa tanto temor às mulheres e tanta repulsa a este que vos escreve. Segundo, que relatar as suas histórias é um ato de coragem e incentivo para que situações assim não se repitam.

Bom, lá vai.

Na época dessa história, eu tinha aproximadamente 14 anos. Eu costumava ficar numa praça perto de casa, junto com os meus amigos, batendo papo e jogado ao ócio habitual. Num dia, nós estávamos conversando quando um carro com uma mulher e dois homens parou na lateral da praça.

Os dois homens se postaram do lado do carro e ficaram esperando, enquanto a mulher desceu e veio na minha direção. Todo mundo achou estranho e todos os meus amigos se afastaram de mim. Meio paralisado, fiquei sem reação. A mulher (que devia ter seus 25 ou 30 anos) perguntou o meu nome. Eu não tive tempo de inventar uma história e perguntei o nome dela, e ela respondeu que chamava Sabrina. Daí eu menti que chamava José.

Após disso, ela começou a fazer algumas investidas, dizer que poderíamos ir para um lugar afastado e fazer algo. Eu começo a sair de perto, morrendo de medo de ser estuprado, sequestrado ou até morto. Na hora foi tudo um borrão, não me lembro o que respondi mas transmiti a ideia de que não queria. Com isso ela começou a me ofender, disse que percebeu que “eu tinha um jeitinho”, como se quisesse dar a entender que eu era gay. Bom, o carro saiu e eu fui correndo para casa.

Eu me lembro que cheguei esbaforido e que, não sei por que motivos, os meus pais estavam usando o meu banheiro. Tudo o que eu mais queria era tomar um banho – apesar de ela ter apertado a minha mão e mal ter tocado em mim, eu me sentia sujo e apavorado com tudo aquilo – como se eu tivesse sido corrompido por algo. Ter chegado em mim, me tocado e dito que queria fazer algo comigo NÃO foi um elogio para mim, foi um causador de desespero, ainda mais por eu ser um garoto na época. Percebendo que eu estava diferente, minha mãe perguntou o que havia acontecido e eu relatei. Meus pais até tentaram perguntar para o homem que vive em frente a praça se a câmera de vigilância dele havia pego o carro, mas estava fora do ângulo.

Olhando em retrospecto, imagino ser essa a sensação de ser cantada todo dia por plenos desconhecidos – a incorporação de sujeira e mais sujeira por cima do “alvo”. Um eterno medo de um mundo no qual sanguessugas assumem o papel de leões só por acreditar que estão em sua selva. Com isso posso dizer que, apesar de não viver isso todo dia, partilho (minimamente) da consciência do que é estar nisso todo dia.

Por causa disso, eu sei que uma cantada barata não é um elogio.