disse que “me dava 5 reais se eu desse minha bucetinha pra ele” – 1922

1922 – Eu tinha 10 ou 11 anos, e estava indo pra escola às 6h30 da manha. Ia sozinha, por costume de ir sozinha. Essa escola ficava a 7 quadras da minha casa, seguindo reto em um avenida movimentada. Era a menor das 3 escolas, que eram (e ainda são) vizinhas umas das outras, todas nessa mesma avenida.

[Trigger warning]

Mais ou menos umas 4 quadras depois da minha casa, reparei que tinha um cara andando de bicicleta bem perto da calçada onde eu estava. Ele tentou chamar minha atenção, então eu olhei rápido, sem parar de andar. Ele não me importunou mais naquele dia. No dia seguinte, ele me seguiu novamente, chamou minha atenção e quando, por instinto, eu olhei, ele estava com o pênis pra fora. Eu fingi que não reparei e continuei meu caminho pra escola. No dia seguinte, ele me seguiu novamente, mas dessa vez me abordou, com o pênis pra fora, dizendo que “me dava 5 reais se eu desse minha bucetinha pra ele”. Eu não sabia o que era buceta, mas entendi o que ele queria. Quando isso aconteceu, estava a menos de 50 passos da minha escola. Disse não e sai correndo. Ele não me procurou mais.

Quando eu tinha 15, aconteceu a mesma coisa. Num dia só me seguiu, no outro chamou minha atenção, mas no terceiro eu fui mais esperta. Na hora de ir pra escola, fiquei na cola de um pai que levava a filha pra escola, e quando passamos pelo cara que me assediava, reparei que ele estava com outro cara, os dois juntos, conversando, e me encarando. Provavelmente eles iam se sequestrar aquele dia.
Alguns meses depois, outro homem mostrou o pênis pra mim na rua da minha escola. Eu fingi que não vi e dei a volta, pra avisar os funcionários da escola. Ele passou por mim de bicicleta e disse “eu sei que você viu, delicia”.
Em todas essas ocasiões, eu estava de calça jeans e uniforme escolar, vestindo um moletom ou com um amarrado na cintura, e a mochila nas costas.

Alguns meses atrás, estava voltando pra casa e passei nessa mesma avenida, na hora do almoço, final do ano letivo de aulas, e um táxi estava estacionado lá. Nele, um homem estava se masturbando e sorriu pra mim quando passei. Eu disse “nojento”, alto o bastante pra ele ouvir, e peguei o celular, fingindo que ligaria pra policia. Ele saiu correndo. Voltei pra escola e avisei a recepcionista (que me conhecia de rosto) o que aconteceu, e pra avisar os coordenadores, pois esse tipo de episódio já havia acontecido ali antes (e os coordenadores, com bom senso, monitoraram as ruas da escola por semanas depois do primeiro caso, alguns anos antes).
Um dia eu estava andando na rua, e um cara passou do meu lado e passou a mão na minha vagina. Nem olhou no meu rosto. Só passou a mão e foi embora.

Eu nunca contei nenhum desses casos pros meus pais, e demorou anos até que contasse pra qualquer outra pessoa. Me senti invadida demais pra falar disso. Não corrompida, não suja, não amedrontada, mas invadida. Indignada.
Todos os dias, independente da roupa que visto, sou abordada por homens que não conheço, que não me conhecem, e que simplesmente se sentem no direito de assediar qualquer uma que passa. Eu ando de fone de ouvido para, caso algum violento apareça, possa usar a desculpa de que “não ouvi”. Não tenho medo de andar pela rua em qualquer hora, com qualquer roupa. Esses homens não usam isso como desculpa real pra assediar alguém, nem pensam nisso. Eles simplesmente só assediam, e meu medo é que um dia eles só ataquem.

Eu tenho 19 anos. Uma vida inteira pela frente. As melhores oportunidades possíveis para qualquer coisa que eu queira, logo a minha frente. Tenho amigos, e gosto de ir a festas, e gosto de sair a noite, e não vou deixar nenhum machista cuzão me impedir de viver do meu modo o meu momento.

E é isso que toda mulher deve fazer, na minha opinião. Não se intimidar, e continuar sendo forte e seguindo em frente e encarando todas as merdas que acontecem (muito mais) com mulheres. E lutar contra isso do modo que encontrar.