“E aí, gostosa. Quer entrar no carro com os titios?”(eu tinha 14 anos) – 1173

1173 – Eu tenho 18 anos mas quando o meu relato ocorreu eu tinha apenas 14.

Minha mãe descobriu que tinha uma academia perto de casa com natação e eu, como quase todas as garotas, queria perder peso e adorava nadar. Haviam duas semanas que eu tinha entrado na natação e ia duas vezes por semana, e pior, eu fazia a noite, mais ou menos as 18 horas eu saía de casa para chegar a natação, um horário CHEIO de carros na rua, principalmente aqui em São Paulo; eu já havia percebido que o trajeto era, digamos assim, ‘irritante’. Eu ia pensando sempre em qualquer coisa que prendesse minha atenção para ignorar as cantas estúpidas. Certo dia, eu fui até a academia vestindo uma legging e um moletom cinza bem grande; entrei na rua da academia e não estava muito longe, há alguns metros havia um estacionamento e logo quando eu ia passar pela entrada dos carros do estacionamento um carro virou-se bruscamente para entrar ali mas não entrou, ficou parado, impedindo minha passagem. Todas as janelas se abaixaram e haviam quatro homens no carro, um na frente e três atrás, todos executivos, de terno e tudo, o carro também não era de se jogar fora. Eles deviam ter todos idade para serem meus pais e, portanto, fiquei assustada. Por mais que houvessem muitas pessoas na rua, eu não teria coragem de dar um escândalo se precisasse, eu era muito tímida na época. “E aí, gostosa. Quer entrar no carro com os titios?”, disse o da frente enquanto os de trás riam olhando para mim. Eu balancei a cabeça negativamente, tremendo. Eles riram mais um pouco da minha cara de assustada. “Você tá linda com essa calça apertadinha, vem aqui com a gente, tem um lugar na frente pra você”, o meu medo aumentava cada vez mais; eu fiquei quieta, olhando, sem responder. Todos os homens me observaram da cabeça aos pés por alguns segundos até que um deles disse “Ah, vamo sair logo”, acho que percebeu que eu não os “divertiria” mais, de tão estática que estava. O carro deu ré e os imbecís saíram cantando pneu. Eu quis cair de joelhos e começar a chorar mas continuei andando, meio trêmula, até a academia. Passei o resto do dia com medo, pensava que eles estariam na porta da academia quando eu saísse, que iam me pegar na rua na volta, que me procurariam de novo na semana seguinte naquela rua… Tenho certeza que se acontecesse hoje, eu responderia dignamente, mas não me culpo por ter ficado tão assustada na época. Agora, eu me pergunto: até quando? Até quando esse machismo imbecil no qual os homens pensam que tem o direito de se impor sobre mulheres que eles nem mesmo conhecem?