e o babaca repetiu “queria ser esse gato” – 905

905 – “Boa tarde! Primeiramente, gostaria de agradecer o espaço de desabafo e compreensão que a página nos oferece. Gostaria também de manter minha identidade em sigilo, pois não acredito que esse seja o meu caso, mas sim o caso de todxs que sofrem com cantadinhas idiotas na rua por um desconhecido que se acha no direito de dizer quaisquer babaquices pra nós, meninas, meninos, homens, mulheres… não acredito que exista o caso da Fulaninha ou do Fulaninho, mas sim de todxs que são oprimidos (talvez essa seja a palavra certa, por mais pesada que seja) pela falta de respeito, caráter e educação de alguns.

Aconteceu há menos de uma hora. Eu tinha ido à academia, fiz minhas coisas tranquilamente; saí de lá e aproveitei para marcar uma tosa para minha cadela, já que onde moro está fazendo um calor infernal e a pobrezinha deve estar sofrendo horrores com todo aquele pelo. Acabei marcando um banho, que seria amanhã, e uma tosa, para a semana seguinte. Brinquei um pouco com a gatinha da dona do pet shop, lá dentro, e depois fui ao mercado. No mercado, pensei em desmarcar o banho da minha cadela e deixar só a tosa – visto que o intervalo de tempo era bem curto entre eles. Voltei, desmarquei e brinquei novamente com a gatinha. Saí e brinquei mais um pouquinho do lado de fora, conversando e tudo com ela.

Acho que esse seria um bom momento para falar que eu sempre ando na rua com uma cara bem carrancuda, bem fechada mesmo, justamente para evitar qualquer tipo de gracinha; mas, quando vejo animais, minha guarda abaixa quase que automaticamente… e foi isso que aconteceu. Eu estava sorrindo pra gatinha – coisa que não faço na rua -, brincando e conversando com ela, suada, descabelada, quem sabe até um pouco fedida da academia. Mas isso não impediu que um BABACA ESCROTO dissesse, em alto e bom som: “queria ser esse gato”. Ele estava trabalhando na loja de material de construção ao lado, levando Deus sabe o quê para dentro da loja. Eu olhei com asco enquanto ele entrava e ignorei. Não satisfeito, ele saiu da loja e repetiu as mesmas palavras: “queria ser esse gato”. Olhei para ele novamente e gritei: “se enxerga, cara! Respeito que é bom, você não tem”. Levantei e fui embora, xingando e transbordando ódio.

Depois que cheguei em casa, fiquei remoendo tudo o que eu poderia – e deveria – ter feito: gritado muito mais coisas, para que ele se sentisse humilhado; pegado o telefone da loja e do caminhão do qual ele tirava os produtos e ligado para lá, reclamado dele até ele perder o emprego; ter entrado na loja e falado com o gerente do comportamento dele… Enfim… no calor do momento, só consegui dizer aquilo e ir embora. É uma sensação terrível ficar se sentindo constrangida e impotente (acredito que essa não foi a primeira nem vai ser a última vez que ele fez/fará isso), mas, depois de ter respondido, me senti menos pior.

Foi a primeira vez que eu respondi a uma “cantada”. E, na hora, meu ódio diminuiu um pouco. Por isso, peço, moçxs: respondam quando vocês se sentirem segurxs; respondam quando estiverem numa rua movimentada, quando estiverem acompanhadxs. Quem sabe um dia essa babaquice acabe. Quem sabe um dia poderemos andar tranquilxs na rua, brincar com um bichinho ou com uma criança, abaixar a guarda, e nada acontecer.”