“ela que ta bancando a dificil, é joguinho” – 656

656 – “Tenho essa necessidade de ter um homem pra me proteger. Eu venho de uma família machista em que eu sempre fui considerada a errada se saisse sozinha na rua, afinal, para meus pais, uma mulher andando sozinha no meio da rua ou é garota de programa ou não tem família, e sim ainda existem familias com esse tipo de pensamento. Tenho um irmão mais velho e percebo toda a diferença de tratamento, tenho 20 anos e nunca peguei um ônibus, não tenho permissão pra dormir fora, não posso sair de casa com roupa curta, fui mantida nesse casulo toda a minha vida e sinceramente não estou preparada para o que encontro agora que frequento uma universidade, não sei reagir, não sei como me comportar, não sei o que fazer. O primeiro real assedio que sofri foi esperando para atravessar o sinal em que um grupo de garotos em um carro parou, começaram a gritar e me chamar para entrar, eu simplesmente comecei a chorar, sai correndo pro banheiro da faculdade e vomitei. Meu corpo tremia, de medo, nunca tinha passado por uma situação tão absurda, sem meu pai e nenhum homem do lado eu me sinto desprotegida, como se a sociedade tivesse dado o direito de pessoas estranhas fazerem o que quiserem comigo simplesmente porque não estou acompanhada. Estava lendo os relatos das pessoas dessa pagina e vejo essas mulheres incriveis que passam por assedio diariamente e estão ai, vivendo suas vidas, enfrentando os assedios e não se submetendo e isso me dá esperança, talvez um dia eu seja forte a esse ponto, talvez um dia eu não me sinta uma rejeitada da sociedade por estar solteira, talvez um dia eu grite e diga “Você não tem o direito de falar o que quiser pra mim só porque eu sou mulher” e não chore, não corra e nem vomite e, principalmente, não tenha medo. São 7:34 da manhã de um domingo, fui ontem à noite em uma festa da universidade, a primeira por sinal, e tudo que senti naquele lugar foi medo, um cara estava me perseguindo durante a festa, me puxava pelo braço, passava a mão na minha cintura, eu tentava sair de perto mas ele insistia, eu queria falar pra ele me deixar em paz mas as palavras não saiam, na mesma hora veio a imagem dos meus pais me falando “vocé devia ter ficado em casa”, meus olhos se enxeram de lagrimas, até que um garoto, não faço ideia de quem seja, viu essa situação, segurou o cara e disse “Deixa a garota em paz, não ta vendo que ela ta assustada porra?” e o outro responde “Eu so quero conhecer ela melhor, ela que ta bancando a dificil, é joguinho”, o cara tentava chegar perto de mim mas esse moço não deixava, não ouvi direito o que eles falaram a partir dai por causa da musica, sei que fiquei parada, com lagrimas caindo e o cara eventualmente desistiu, corri para a entrada da festa, me escondi atras de um arbusto e liguei pro meu pai, chorando, pedindo pra que ele fosse me buscar. Não tive a oportunidade de falar nada pra esse moço que me defendeu, provavelmente nunca vou encontra-lo de novo, mas mesmo que ele nunca saiba disso eu gostaria de dizer obrigada, obrigada por perceber a dor de outro ser humano, obrigado por se envolver em algo que não era assunto seu e ajudar uma estranha, sem interesse, sem segundas intenções, obrigada por me mostrar que existem homens que não olham pra mim e vêem bunda e peito, e sim alguem que olhou nos meus olhos e viu minha dor. Agora são 8:50 da manhã, estou escondida debaixo da coberta, não consigo falar, não consigo levantar, não consegui dormir, pensei que talvez escrever sobre isso me ajude, não tenho coragem de contar o que houve pros meus pais ou pras minhas amigas, eu sinto vergonha, vergonha de ter sido fraca e não fazer nada, esse cara provavelmente foi pra cima de outra garota na festa, foi pra casa dele, se divertiu pra caramba e nem vai lembrar disso quando acordar e eu to aqui, sem conseguir fazer nada por causa dele. Sigo na esperança de que um dia eu responda, um dia eu não tenha mais medo, um dia eu fale alguma coisa. Desculpem pelo texto longo, precisava desabafar.”