Ele começou a me seguir pelos corredores e eu fiquei com medo. – 778

778 – “Pensei bastante antes de decidir contar um dos meus casos… Esse foi o mais recente. Estava no instituto de previdência do município onde trabalhava na época. Estava distraída saindo do banheiro e olhando pra baixo. Um rapaz jovem cruzou comigo e jogou o corpo pra cima de mim. Num primeiro momento imaginei que fosse porque o corredor estava lotado e não havia espaço para passar, mas logo vi que não foi por isso, afinal no exato local onde ele estava havia espaço.
Nesse segundo em que nos cruzamos ele se aproximou de mim e falou um monte de besterias no meu ouvido. Coisas que eu prefiro nem repetir. Ele fez isso e foi embora, continuou seu caminho. Eu, meio sem acreditar que aquilo tinha acontecido, me virei e perguntei bem alto (pra todo mundo ouvir mesmo) se ele era louco. Vi então que ele usava um crachá! Ele era funcionário do instituto! Era um funcionário público, me assediando ali, em seu próprio local de trabalho! Gritei mais alto ainda perguntando se ele era louco de “mexer” comigo numa instituição pública sendo funcionário dessa instituição.
A cara que ele fez me dá nojo só de lembrar. Colocou a mão no peito e disse: “eu?” E ai continuou se fazendo de vítima. Me chamou de louca, afinal, como ele poderia ter feito “qualquer coisa” comigo se nunca havia me visto? Se havia cruzado por menos de um segundo comigo no corredor? Continuei gritando e seguindo meu caminho pra direção oposta de onde ele estava indo. Chamei ele de tarado, covarde, mentiroso. “Tarado” eu repeti bastante.
Ele começou a me seguir pelos corredores e eu fiquei com medo. Resolvi continuar falando alto, imaginei que enquanto eu estivesse fazendo barulho ele não poderia fazer nada comigo. Ele foi tão dissimulado que disse que eu poderia denunciá-lo naquele mesmo momento à presidência do instituto. Muito rapidamente eu pensei: “ninguém viu ou ouviu as coisas que ele me falou no meu ouvido, não tenho provas”. Aí pensei em todo o constrangimento que seria provar o que eu estava dizendo. Achei melhor continuar meu caminho. Sai do prédio aos berros, chamando o fdp de covarde. Era o que ele queria. Quando viu que eu estava perto da porta, ele parou de me seguir.
Sai do lugar, atravessei a rua, peguei o ônibus tremendo e chorando muito com medo de qualquer coisa. Estava com raiva de mim mesma por sentir tanto medo. Fiquei mal por dias com essa história. O que mais me chateou foi o quanto ele pôde ser tão dissimulado e covarde pq nem assumir o que ele fez ele conseguiu. Espero que um dia as mulheres possam sair na rua sem medo, ou sem ter de atravessar a rua toda a vez que passam por uma construção ou vêem um aglomerado de homens em algum lugar.

Somos todas Khaleesi.”