“ele enfiou a mão na minha bunda!” – 649

649 – “Na minha casa, fomos sempre mulheres, sem a presença de um homem. Então desde sempre nos viramos sem a figura masculina presente. Resumindo: cresci sabendo da capacidade de assédio dos homens e a me defender disso.  Na adolescência, uma amiga minha mudou de cidade e nos tornamos vizinhas. Em determinados aspectos, ela não sabia se defender, pois estava acostumada a ter a figura paterna protegendo ela de certas coisas que poderiam acontecer com uma “garota” como o assédio do dia a dia. Um dia, quando íamos para a escola caminhando e conversando, notei uma bicicleta se aproximando de nós, mas nem dei importância, estava do lado da calçada e naquele horário era normal os pais deixarem filhos numa escola primária perto da nossa. Continuei andando e falando, quando percebi que ela havia ficado para trás, quando olhei pra ela, percebi que algo havia acontecido. Voltei e perguntei o que estava rolando, porque ela havia parado e estava estática, olhando pra baixo. Foi aí que percebi que ela chorava. Então ela me disse que o cara de bicicleta havia passado a mão nela. Na hora eu perplexa e sem entender as lágrimas “como assim passou a mão em ti? Pegou no seu cabelo? Apertou sua mão? De teu um tapa?”  “não, ele abusou de mim, ele enfiou a mão na minha bunda!” na hora eu achei meio bobo ela chorar, afinal na época eu achava normal que um homem tentasse passar a mão na gente, já haviam tentado comigo, só que eu achava que isso acontecia *porque a gente dava brecha – que era a nossa roupa*, nisso eu me toquei que não era a nossa roupa que instigava isso nos caras, eram eles, a culpa era toda deles, nós éramos duas garotas uniformizadas, com aquele uniforme feio, calça folgada,camisa grande, tênis. Foi um estalo na minha cabeça. Minha mãe e avó sempre diziam pra eu tomar cuidado, que os homens poderiam agir assim, nisso eu me convenci que eu devia me masculinizar, apesar delas dizerem que não era bem assim. Na minha cabeça, eu mesma me podei, pois um cara nunca faria isso se eu estivesse de bermuda e camiseta. Mas nesse dia tudo mudou, não era a minha roupa!  Quando percebi, eu já tinha largado a mochila no chão e saí correndo atrás do cara. Eu tinha um físico legal e apesar do cara estar de bicicleta, dei uma “carreira nele” nunca vi um cara tão nervoso, de bicicleta, pedalando como se não houvesse amanhã, com medo de uma pirralha de 1.50 de altura, que xingava ele de pedófilo e estuprador, quase alcançando a bike dele e por pouco não derrubei ele da bicicleta. Ele fugiu pedalando alucinadamente. Eu, um tempo depois, reparei que ele deixava todo dia a filha de uns 5 anos na escola, pois continuávamos ambos, fazendo o mesmo percurso. Quando vejo um rosto, não esqueço mais, a partir daí eu ficava encarando ele toda vez q passava pela rua, pedalando bem longe de mim e meio apressado. Aquele cara ficou com essa lição guardada pelo resto da vida e eu também.  Hoje em dia eu não reajo da mesma forma, não saio mais correndo atrás dos caras para bater HSUAHSUAHSUA.  Com o passar dos anos aprendi a ser desconfiada com os homens, em festas, bares, rua, ônibus. Não tenho mais a postura agressiva da adolescência, mas me mantenho firme, pois nenhum assediador jamais vai me quebrar com seu assédio.”