“Ele me dizia que se eu contasse minha mãe me odiaria por ser uma ‘putinha’ ” – 1306

[TRIGGER WARNING – Abuso infantil]

1306 – Não poderia dizer ao certo quando tudo começou, por volta dos 6 anos de idade, ao que me lembro. O abuso foi algo constante em minha vida, visto com naturalidade até pela minha mentalidade infantil e ao longo dos anos “aceito” por “já ter acontecido tanto mesmo”. 1306 – Primeiro o filho de amigos dos meus pais, adolescente, eu era deixada para passar as tardes lá várias vezes ao mês e todas as vezes ele me obrigava a ir ao quarto dele. Ele me dizia que se eu contasse minha mãe me odiaria por ser uma ‘putinha’, mas isso não me dizia muito porque eu nem mesmo sabia o que isso significava. Eu não contava e nem eu mesma entendo o porquê, uma mistura de medo e culpa. Culpa por que?! Eu o via como um ‘adulto’ então eu -tinha que obedecê-lo-, este nunca chegou a usar a força. Durou até os meus 13 anos, mas não foi o único, as vezes ele chamava um amigo para participar, hoje tudo é um borrão em minha memória. Quando eu tinha 11 anos minha mãe que apresentou seu novo namorado, este foi o 3º. (dos 11 aos 13 eu convivia com os dois/três) Ele a esperava sair para trabalhar e ia me surpreender durante o sono, eu a essa altura era tão depressiva e passiva que simplesmente não fazia nada, eu via aquilo como algo que eu havia nascido para fazer, uma condição, eu desde sempre me via como um objeto, como algo a ser usado, eu me sentia completamente sem voz, sozinha. Consegui “aguentar” a situação até os 16 anos (sim, durante 10 anos da minha vida) e então eu não pude mais. Após algumas tentativas de suicídio e uma relação familia completamente destruída (eu me isolava completamente de todos, não queria permitir que ninguém me conhecesse, acima de tudo eu me culpava e consequentemente me punia), eu percebi que precisava por um ponto final. Me impus e consegui dizer ‘não’. A princípio meu ‘padrasto’ ignorava minha negação mas dessa vez eu reagia, dessa vez eu não me sentia mais uma criança e por fim ele se viu ameaçado (obviamente era um covarde) e só então eu pude me ver livre. É algo que sempre vai doer. Nunca pude ter uma ‘primeira vez’ como minhas amigas, ou me sentir especial com alguém. A princípio eu me odiava absurdamente por não ter reagido antes, mas com o tempo comecei a entender melhor e me entender melhor. Apenas hoje, aos 21 anos eu começo a me permitir ter um pouco mais de intimidade com quem eu amo, apenas recentemente eu perdi o medo de permitir que me conheçam, começo a me sentir -viva- e pouco a pouco reconstruir minha identidade e minha relação com minha família (que nunca soube). E deste relato, se você está lendo em situação semelhante: Reaja. Você não é mais fraca do que ninguém se não quiser ser.