“ele nunca faria isso”, “você é louca” – 1045

1045 – Não sei como começar, talvez dizendo que não foi culpa minha e tentando me convencer disso. Mas, por muito tempo eu achei que pelo menos um dos casos que vou contar foi sim minha culpa, mas, vamos com calma.

Me perdoem, mas, são vários abusos, então o relado vai ficar grande.

Eu sou filha de uma ex garota de programa e me entregou a uma familia para que me cuidassem até poder me criar. Depois de algum tempo minha avó decidiu que isso era errado e lutou na justiça pela minha guarda. Ela conseguiu. Fui então morar com ela. Aos 3 anos ela se casou novamente e fomos, eu, minha avó, seu marido e uma das minhas tias, a caçula.

Os primeiros abusos aconteceram assim que mudamos, e eu não me recordo muito bem. Lembro de acordar com ele passando as mãos em mim, colocando o dedo em mim, me mordendo, e mexendo nos meus seios, me abusando.
Eu não sabia que era errado, mas não gostava, era estranho e dolorido, mas era a forma de ter atenção dele, que sempre era tão maldoso comigo e me batia.
Cresci, nesse lar abusivo, mas aos 8/10 anos ele parou com esses abusos, depois que contei que ele ficava me vendo trocar de roupa e tomar banho. Minha avó foi omissa, disse que era coisa da minha cabeça, mas,ele nunca mais repetiu.

Recebi diagnóstico de esquizofrenia ainda cedo, com 12 anos.

Aos 14 percebi que gostava de meninas, que era homossexual, e não me aceitei. Aos 16, fui á um acampamento da igreja e lá encontrei uma orientadora, que lidava com assuntos sexuais, me abri com ela, e no dia seguinte ao término, fui á sua casa para conversar.  Nesse dia, conversamos muito, e decidi que seria hétero a todo custo. Que deus ia se orgulhar de mim, que eu seria uma boa menina. Que faria conforme a igreja ensina.

Durante alguns meses eu fui lá, fiz amizade com a filha e o filho, e era simpática quando via o marido. Não imaginava que ele me abusaria na primeira noite que dormi lá. Era cedo, um domingo perto das 6 da manhã, eu havia acordado bem cedo e estava na sala escrevendo quando ele se aproximou e sentou no mesmo sofá que eu, depois disso, a memória vai indo embora e lembro menos á cada ano. Ele colocou um filme para eu assistir e ali me forçou a chupá-lo, introduziu dedos em mim, e ficou chupando meus seios. Eu não lembro como terminou essa situação, mas, ele não conseguiu me penetrar.

Eu contei, tive medo, pois, fui ameaçada, chorei muito, mas não acreditaram em mim. “ele nunca faria isso”, “você é louca”, ” isso é um surto da esquizofrenia”. Ele fugiu para o nordeste e eu fiquei com os pesadelos, medos, e problemas de saúde que adquiri nesse dia.
Eu nunca mais fui á igreja, não saia mais de casa, emagreci muito, não saia do hospital, virei um fantasma, uma morta viva. Mas, para a família, estava tudo bem. Adquiri anorexia, bulimia, me auto mutilava, uma vez o desespero era tanto que comecei a raspar o cabelo sozinha, e fui parada por uma prima que me ouvir chorando e o barulho da maquina.

Aos 20 anos eu voltei á igreja e conheci um cantor que também era caseiro de lá, nos tornamos amigos e aos poucos, fomos conversando sobre tudo, incluindo sexo.
Até que teve um culto que ficamos o tempo todo fora da igreja conversando e decidimos passear no dia seguinte. Fomos no shopping de outra cidade e ficamos conversando. O clima esquentou, e decidimos, juntos, ir para um motel. Eu estava sem documentos, então eu disse para irmos embora.
No meio do caminho, ele saiu da estrada, parou num matagal e perguntou se eu queria perder a virgindade ali, eu disse que não sabia, ele foi me envolvendo, nos beijamos, começou a me excitar com as mãos e eu fui aceitando, mas, antes mesmo de ficar nua, eu soltei dele e subi na moto, disse que queria ir embora, que não queria, que não estava preparada.
Ele não me ouviu, me puxou da moto e me estuprou ali mesmo. Sem detalhes, apenas foi cruel e me fez ver que existem monstros que se fazem de cordeiros para dar o bote.

Só conto isso para de alguma forma ver se hoje , depois de 7 anos do abuso e 2 anos do estupro, a dor diminua.