ele tava com um sorrisinho debochado – 1113

1113 – Hoje eu estava sentada no metrô da linha 3-Vermelha. Era por volta das 9h20 da manhã, nesse horário não tem muita gente. Chegou na estação Anhangabaú, o moço que estava do meu lado desceu e eu sentei no lugar dele, aquele banco do corredor, porque desceria na próxima estação. Nisso, subiu no trem um cara de roupa social e óculos escuros. Pessoa normal, aparentemente. Tinha lugar pra sentar no vagão. Tava completamente vazio. Ele veio ficar de pé do meu lado. Eu já fiquei desconfortável e vi o olhar de um cara da minha idade que tava sentado no banco do lado olhando pra mim porque havia percebido o quão estranho é uma pessoa vir grudar em você, sendo que o vagão está completamente vazio.

Gente, não deu DEZ SEGUNDOS, o metrô nem virou, tava em linha reta, nem a desculpa de encostar em mim porque o trem fez uma curva colava. Ele encostou descaradamente o pau duro no meu ombro. Eu sempre reajo a esse tipo de coisa, mas não consegui falar nada porque me subiu uma sensação de nojo tão grande que segurei o vômito, de verdade.

Olhei pra cima, ele tava com um sorrisinho debochado olhando pro lado, em momento algum me olhou nos olhos. Subiu meu sangue, tudo o que eu queria fazer era sair dali. Só isso. Levantei, olhei nos olhos dele com um olhar muito enojado e raivoso e fui ficar do lado da porta do outro lado, assim não teria risco de ele ficar me secando porque estava de costas. Fiquei do lado do cara que tava olhando a hora que esse escroto ficou do meu lado. Ele também estava com cara de nojo e me olhava com uma cara de “sinto muito”, porque viu o que aconteceu.

Quando o trem chegou na estação Sé, eu fixei o olhar no escroto. Aí ele me olhou. Eu fiz uma cara de nojo, olhei da cabeça aos pés. Ele virou a cara. Desci do metrô me sentindo muito suja, muito mesmo, porque isso não acontecia comigo há um tempo.

Depois que eu desci, fiquei imaginando o monte de coisas que eu poderia ter falado pra expor o escroto, porque eu faço isso todas as vezes, mas dessa vez não consegui na hora e não sei explicar o motivo pelo qual eu me calei.

Peguei meu álcool em gel da bolsa, taquei quase metade do pote e passei no meu braço pra tirar aquela sensação de sujeira que eu estava. As bactérias da calça dele saíram do meu braço, mas o rosto dele vai ficar pra sempre na minha memória.

Até quando a gente vai ter que passar por essas coisas? Não dá mais. Não dá mesmo.