Em Paris, no metrô, ficavam ‘secando’ o meu decote – 640

640 – Moro em Paris, e quero relatar algo pra deixar claro que « cantada de rua » não tem cor, raça, classe social ou nacionalidade. Assedio de rua é coisa de gênero, pura e exclusivamente. Sexta-feira, tomamos o metrô meu namorado, uma amiga e eu e fomos encontrar outros amigos em um bar. Aqui estamos em plena primavera e o tempo passa de um dia pro outro do frio ao calor. Há tempos não usava vestidos e nesse dia de calor, resolvi usar um. Um vestido preto, básico, comprido até metade da canela com um puta decote. Um PUTA de um decote. Sim, pois é, depois de muitos meses me vestindo de esquimó queria usar uma roupa na qual me sentisse bem, e meus maiores atributos (literalmente) são meus seios. Não digo isso para me justificar, pois nenhuma mulher deveria se justificar, nunca, sobre a roupe que ESCOLHE usar. Só digo isso para que entendam meu estado de espirito: redescobrindo meu corpo com “pouca” roupa. No caminho da ida, já notei olhares, a maioria “julgando” o decote (tanto de homens como de mulheres), mas nada excessivamente desagradável. Dentro do bar tudo ocorreu às mil maravilhas, a noite toda. Na volta, começaram os “problemas”. Passando pela calçada, antes de chegar no metrô, passamos pela entrada de uma balada e os seguranças comentaram algo. Na hora achei ter entendido algum comentário sobre meus seios, mas como os seguranças falavam entre-si em tipo de patois franco-africano, fiquei na duvida. Foi ai que perguntei à minha amiga “você ouviu o que eu ouvi?” ela repetiu exatamente a frase que eu achava ter ouvido, fazendo sim referencia aos meus seios. Meu namorado que não tinha ouvido nada, ficou nervoso quando nos ouviu comentar o ocorrido. Já dentro do metrô (era 1h da madrugada, em um bairro “pouco frequentável”, para dizê-lo assim. As pessoas no metrô já estavam mais pra lá do que pra cá…) os olhares ficaram mais fortes, incisivos e desagradáveis. Meu namorado já estava em estado de alerta e me “protegeu” como pôde (não que eu pense que uma presença masculina seja necessária para “proteger” a mulher, mas nesse caso foi a atitude que ele julgou certa.) Ele não mudou seu comportamento nem comigo nem com o resto dos passageiros. Apenas se posicionou “estrategicamente” na minha frente (ou melhor na frente do dito cujo decote – do qual ele não reclamou em nenhum momento, acho válido ressaltar –  e encarou com cara feia todos os homens tentando olhar.  Quando chegamos em casa conversamos até (mais) altas horas sobre o ocorrido e varias coisas interessantes foram ditas.  A atitude dele de me “proteger” servindo de barreira física aos olhares absurdamente grotescos e nojentos foi eficaz, mas só serviu de “paliativo” ao problema. Não o resolveu, no sentido em que esses homens não aprenderam nada além de “respeitar a propriedade alheia”, seguindo com uma concepção da mulher em forma de OBJETO. Meu namorado é tão (senão mais) feminista que eu, e esta completamente consciente disto. Mas na hora, foi a única coisa que ele pôde fazer (ele não é uma pessoa violenta por natureza), do mesmo modo em que nos, mulheres (ou homens em posição de serem vítimas de assédio), nem sempre reagimos da forma mais “pedagógica” e “militante” possível. Esse tipo de coisa mexe com os sentimentos, com os instintos, tanto da vitima como que quem acompanha. Também falamos de como estou “acostumada” (mas jamais conformada) com esses assédios, por ser vitima disso desda puberdade. Acho que é o caso de muitas meninas, que sem mesmo entender o que acontece são vitimas disso. Todos nos temos pedaços de machismo interiorizados em nossos comportamentos, e a unica maneira de mudar isso, é na educação, principalmente para as gerações futuras. Meu grande objetivo de vida sera criar filhos sem sexismo, deixando que eles mesmos moldem suas concepções de gênero. Ao longo de suas vidas, experiências e preferências, sem jamais se sentirem limitados por convenções sociais sexistas e estupidas.