Em todos os lugares que eu ia eu ouvia algo – 586

586 – Eu só queria mostrar a todas as meninas aqui que sim, há possibilidades de reagir.   Quando eu tinha 12~13 anos, eu andava para minha escola, que ficava há uns 20 minutos de casa. Eu sempre fui gordinha e gostei de blusas e folgadas, e sempre foi assim que me vesti na adolescência – e assim eu passava por uma mini mecânica que ficava no pé da ladeira da minha casa. Tinha um menino que eventualmente ficava na porta no horário do almoço e me esperava passar para falar qualquer coisa. Quando chegava perto do horário de sair, eu me irritava e pensava em todas as formas de sair sem passar por ali. Algumas vezes eu o fiz, não adiantou. Em todos os lugares que eu ia, onde estivesse um homem prestando a atenção, eu ouvia algo. Sempre. E o que surgiu foi ódio. Eu ainda era uma menininha e eles sabiam disso, mas eu notei algo e foi um fato transformador em minha vida: o agressor – esse rapaz que acha que é um elogio ou que você deveria se sentir bem, ou que pensa que você deveria só ficar em seu lugar – se sente cada vez mais forte quando nota sua submissão. E eu não conseguia e ainda não consigo me submeter.   Não vou dizer que é fácil. Eu já fui escorraçada por dois pedreiros berrando, já fui xingada de todos os nomes e aprendi que existem assediadores e assediadores. Recentemente, falei muito educadamente a um senhor (também mecânico) que apesar de ser linda, eu não estava disposta a ouvir qualquer coisa só por que ele queria, bom dia pro senhor também; discuti civilizadamente com um rapaz perto da minha faculdade (acredito que também estudante) que eu não havia falado com ele e não entendia por que razão ele achava que poderia conversar comigo ou me dizer qualquer coisa; berrei a um motorista por respeito, ergui o dedo. Mas eu sei que a cada um que eu revido é um passo a menos para um assediador ir a outra mulher – afinal, teve uma, sabe, daquela vez, que revidou.   Tome o espaço da rua. Argumente. Encare. Se coloque como igual.