Enquanto atravessava a rua, me senti num corredor polonês – 1133

1133 – Queria contar meu caso. Semana passada, no calor de 35° que fazia na minha cidade, eu andava pelo centro em direção ao ponto do meu ônibus. Como o asfalto piora o calor, vesti um macaquinho de malha, mesmo sabendo que essa escolha renderia abusos. Eu não escolhia mais roupa pensando em não chamar atenção. Usava o que queria e respondia aos agressores. Mas tudo retrocedeu com esse episódio. Enquanto andava por uma travessa das principais ruas do centro da cidade, um grupo de homens passou por mim. Ambos, eu e o grupo, esperávamos para atravessar a rua, estando de lados opostos. Assim que me viram, já ouvi comentários em voz alta entre eles. Eles fizeram de uma maneira que tive que passar pelo meio deles. Enquanto atravessava a rua, me senti num corredor polonês, sendo provocada de todo lado. Eu, que tenho sangue quente, não aguentei. Gritei “vai pro inferno” bem no meio deles. Mas então me dei conta do perigo que isso poderia representar e apertei o passo, sempre olhando se ninguém me seguia. Felizmente (ou infelizmente?), eles riram, me chamando de irritadinha e continuando seu caminho fazendo comentários sobre minha atitude entre eles. No mesmo dia, vi vários homens que poderiam ser meus pais (ou até avô) olhando pra mim. Me senti com nojo e vergonha, exposta. Me culpei por ter escolhido essa roupa. Sabia que isso era estupidez, mas foi o que senti. Desde então, levo uma calça na bolsa. Sei que é uma atitude covarde, mas não suporto passar por aquilo de novo.