Entrei em depressão profunda antes de seguir em frente – 2071

TRIGGER WARNING – Contém relatos de abuso infantil e estupro

Nos conhecíamos desde pequenos, pois nossas famílias eram amigas. Ele sempre disse gostar de mim. Eu sempre senti uma certa cautela em relação a ele.
Certa vez, quando tínhamos aproximadamente 11 anos e ele e sua família nos visitava, após eles partirem, minha irmã(na época com apenas 3 aninhos) reclamou que B (vou chamá-lo assim) tinha se deitado sobre ela. Minha mãe imediatamente ligou para a dele. Por fim, não deu em nada.
O tempo passou, esqueci essa história e aos 18 iniciamos um namoro. Meu primeiro namorado. Meu primeiro contato com o sexo.
Com o tempo notei que ele mentia muito e para todos. Mentiras pequenas e desnecessárias. O namoro se tornou conturbado, pois ele sempre me chantageava emocionalmente para fazer algo que não queria. Ele estava acostumado a fazer isso e se gabava por vencer a todos pelo cansaço.
Também notei que ele consumia muita pornografia e que tinha repugnância por gays. Descobri uma conta de e-mail e um perfil no Facebook falsos voltados para o consumo em sigilo de pornografia. Ele inventou que as contas não eram mais dele, que um amigo se apropriou das mesmas. Não acreditei e quis terminar. Ele chorou muito, disse que era normal homens fazerem isso, mas que não faria mais. Cedi e continuamos, pois eu não queria ser careta, afinal é normal homens procurarem por pornografia.
Certa vez ele me disse que eu não sabia “ficar de quatro” e então me mostrou um filme pornô e falou que eu devia “empinar” como a atriz. Chorei em silencio, mas conclui que ele devia estar certo, já que eu não sabia nada sobre sexo.
Logo no primeiro ano de namoro um tio dele muito próximo acabou por falecer em um acidente de moto e ele ficou muito abalado. Uma semana antes do acidente, esse mesmo tio nos convidou para comer uma pizza em sua nova casa. Eu disse que não queria ir, pois estava tarde, mas que ele podia ir. Ele decidiu ficar comigo. Ele passou a me culpar por não ter visto o tio pela ultima vez, que eu havia o impedido. Me culpei por isso e conclui que eu estava em debito com ele.
Seguimos com o namoro, mas acabei por me afastar de amigos, deixei de estudar e comecei a ir muito mal na faculdade, pois ele queria estar sempre junto. Não me dava tempo nem para depilar as pernas.
Nesse meio tempo ele me revelou que um primo havia abusado dele ainda na infância. Foi ai que coloquei na minha cabeça que tinha que lhe ajudar. Passei a ser triste, irritadiça e muito fechada.
Uma noite quando fui até a faculdade de B. para lhe dar um beijo, ele saiu todo cabisbaixo e me disse que a prima Y, 13 anos tinha inventado uma historia à professora de que ele tinha lhe molestado aos 7 anos (ele teria 16 na época). Ele negou veemente. Não acreditei, mas ele chorou tanto que eu decidi continuar a lhe ajudar com seus problemas.
Passei a sentir nojo, não queria beija-lo e nem transar, mas ele ficava bravo e eu acabava por ceder. Morri por dentro, me tornei seca.
Numa madrugada, me recusei a transar, já que estava muito cansada. Adormeci. Acordei com ele gemendo no meu ouvido. Senti algo molhado na minha bunda. Era ele se masturbando e gozando em mim. Fiquei assustada. Muito. Mas ele me disse que não dava para aguentar, já que eu tinha me recusado. Achei que ele estava certo e me senti frigida por não ter desejo.
Me tornei uma sombra de mim mesma. Eu já não sabia que eu era. Só havia espaço para ele. Passei a fuçar tudo. Celular, computador, gavetas. Eu precisava de um motivo concreto para terminar. Minha mente estava viciada em controlar os passos dele. Eu precisava encontrar algo incriminador. Não encontrei e me senti a pior pessoa do mundo por ser tão desconfiada, já que ele dizia me amar, querer casa e ter filhos comigo. Eu não queria. Me sentia culpada por isso também.
Ele se cansou e uma noite terminou o relacionamento alegando que tinha me tornado muito possessiva. Ele foi rude, me chamou de ridícula. Me senti rejeitada e numa tentativa desesperada ameacei contar sobre o suposto abuso da prima aos pais dele. Ele implorou e eu prometi não contar. Até hoje não contei. Até hoje acredito que ele abusou sim da prima e de minha irmã também. Sabe se lá de quem mais. Foi difícil entender que ele já era minha “responsabilidade”. Os pais dele não acreditariam em mim. Ninguém acreditou na prima dele.
Doeu, mas assim que ele passou pela porta da minha casa pela ultima vez, eu senti o ar enchendo meus pulmões. Seria uma longa jornada de desconstrução, mas tudo ficaria bem.