entrei numa loja, um homem entrou atrás – 679

679 – “Lendo os testemunhos dessa página, lembrei de algo que aconteceu comigo quando ainda era pré-adolescente. Eu deveria ter uns treze ou doze anos (hoje tenho vinte e três). Nessa fase, já ia da escola para casa sozinha, porque não tinha quem me levasse ou buscasse. Eu morava com a minha mãe e avó. Minha mãe trabalhava o dia todo e a minha avó não podia ficar se deslocando por aí para buscar a neta em outro bairro. Eu sempre morei em um bairro e estudei em outro, durante toda a vida.   Em um dia normal, saí da escola (estudava pela manhã), peguei um ônibus e fui para a casa. Tudo normal até aí. Onde moro existem pequenos comércios, e, por vezes, ficava caminhando por eles até chegar à minha casa. Entrava nas lojinhas para ver se tinha algo de interessante para comprar.   Ao entrar em uma dessas lojinhas, observei que um homem entrou logo atrás de mim. A cada passo que eu dava, ele dava também. Se eu passasse para um lado da loja, em seguida ele estava do mesmo lado que eu. Eu sempre fui meio paranoica com essas coisas, principalmente porque eu tinha que andar sozinha pela rua pra chegar em casa. Um medo que eu suponho ser comum a todas as mulheres. Infelizmente, esse medo é uma constante em nossas vidas somente pelo falo de sermos mulheres.   Quando percebi que não era mais o caso de paranoia e que eu estava mesmo sendo seguida e observada por um homem mais velho que eu, fiquei desesperada. A loja estava vazia, era apenas eu, o meu perseguidor e o dono da loja. O que eu poderia fazer em uma situação dessas?   Fingi que não havia percebido o que estava acontecendo, saí da loja, ele saiu também. Entrei em outra lojinha, essa com mais pessoas, e tentei me misturar no meio delas. Eu precisava despistá-lo. Quando notei que ele não conseguia mais me ver e que ainda me procurava, saí correndo da loja. Corri o máximo que pude até chegar em minha casa, com o coração na boca e pensando que o pior poderia ter acontecido comigo.  Só de escrever esse relato, fico um pouco nervosa. Era um caso que eu tinha me forçado a esquecer, porque me deixou bastante traumatizada. E me entristece pensar que isso acontece todos os dias e que muitas mulheres (ou meninas) não têm ou tiveram a mesma “sorte” que eu: conseguir fugir.”  Marília Leite