Estou cansada dessa sensação de constante “alerta” – 690

690 – “Estou enviando uma mensagem para desabafar um pouco. Estou cansada de me sentir constantemente acuada em lugares públicos. Já perceberam que estamos SEMPRE rodeadas de homens? Quando saímos nas ruas é difícil encontrar grupos reunidos de mulheres bebendo… mas homens? A qualquer hora do dia, em qualquer bar, lá estão eles. São eles que estão olhando para nós quando damos sinal para o ônibus parar – em São Paulo é raríssimo uma mulher motorista – são eles que olham nossas pernas enquanto subimos os enormes degraus do ônibus. Na minha faculdade, tanto na xérox como na biblioteca, lá estão eles… nos observando enquanto apressadas, nós entramos, pegamos o que queremos e saímos logo dali.   Os homens não devem mesmo nos entender. Não é que eu ache que serei estuprada dentro da xérox ou dentro da biblioteca. Mas sabe como é sentir que você está no campo inimigo em, digamos, 80% do tempo? Dentro de um shopping, os seguranças são quase todos homens e é a eles que recorremos quando precisamos de ajuda. Quantas policiais militares vemos por aí? Poucas. Sempre que preciso de uma informação, encontro homens, seja no shopping, seja no ponto de táxi. Com 14 anos, indo para a escola, perguntei a um segurança de shopping as horas. Ele disse que só me daria se eu lhe dissesse meu nome. Ingênua, eu disse. Ele me pediu um beijo e eu fui embora percebendo o quanto havia sido feita de idiota. Hoje, tantos anos depois, já aprendi, meu corpo já aprendeu, já estou condicionada a ter medo, receio. É horrível a incerteza de se aproximar de um grupo de homens ou mesmo de um homem só, sabendo que precisa da ajuda deles e que eles provavelmente te olharão da cabeça aos pés, avaliando o tamanho da sua bunda, dos seus seios e dosando o tratamento que te darão a partir da satisfação que sua aparência lhes confere.   Estou cansada dessa sensação de constante “alerta”. Não sou inimiga de homens, não acho que sejam todos assim, mas sempre que vejo um homem no meu caminho, meu corpo já me diz: cuidado. E eu passo por ele com a cabeça erguida, fingindo que não escutei, fingindo que estou ignorando palavras que, na verdade, me ameaçam dia-pós-dia.”