Eu não conseguia me lembrar – 1122

1122 –  [TRIGGER WARNING – relato de abuso infantil]

Lembro de sempre odiar meu avô. Não lembrava de algo que ele tivesse feito para causar isso em mim, pelo contrário, sempre tentava conversar comigo ou fazer carinho em mim. Mas sempre tive nojo e medo dele. Um nojo muito forte. Nunca consegui olhá-lo diretamente nos olhos ou conversar com ele, não gostava nem de ficar no mesmo ambiente, e isso me rendeu vários sermões de como eu deveria respeitá-lo e bla bla blá.

Um dia um amigo meu me convidou para uma festa em sua casa, fui e lá e tinha vários outros amigos. Até que uma hora o dono da festa mostrou um cartucho vazio e perguntou se queríamos olhar a coleção de armas do seu pai; todo mundo concordou e eu fui na onda. Não lembro o que aconteceu em detalhes, só que alguém apontou uma arma vazia para mim tentando me assustar e brincar comigo, e eu me joguei no chão chorando como uma desesperada. Lembro da pessoa me pedir desculpas e fui embora pra casa.

Então lembrei, não lembro como lembrei assim como não lembro do acontecimento na festa do meu amigo, só veio um estalo, saca? Não sei explicar. Lembrei de estar no quarto do meu avô, a mão dele na minha testa e mexendo no bem no começo do meu cabelo, enquanto outra mão tava no meio das minhas pernas. Ele falava alguma coisa, não sei o quê, eu só conseguia olhar a barba dele que parecia enorme, e de como aquilo tava doendo. Eu estava chorando. Então ele levantou de cima de mim e foi pegar em cima do guarda roupa a arma de caça que ele herdou (a arma está até hoje em cima do guarda roupa dele!); ele voltou pra cama e me mandou abrir as pernas mais e colocou dedos em mim e apontando a arma pro meu rosto enquanto gritava “você sentou no meu colo! Quem senta no meu colo quer, você estava querendo, está entendendo?”. E eram os gritos, era barba, era a arma e não sei mais nada. Não sei se sentei mesmo no colo dele, não sei nem se ele não fez isso mais vezes!

Essa é a primeira vez que falo sobre isso. Não consegui falar isso para minha mãe, falar que o pai dela me abusou. Não sei se ela ia desmoronar, se minha vida ia acabar, se minha família ia acabar. Estou nisso faz um tempo e sei que estarei o resto da minha vida. Sou adolescente e sinto que já estou acabada. Mas precisei falar, mesmo que ninguém saiba de verdade, estou sufocada. O que estou querendo é que isso suma, que eu esqueça e tudo volte ao normal.

Eu só queria compartilhar isso. Queria não me sentir única, e sei que querer essa sensação é terrível, porque para eu não ser única outras pessoas deveriam passar pelo que passei e passo.