“eu queria parar de sentir essa falta de liberdade” – 644

644 – “Acompanho os relatos há algum tempo e essa semana aconteceu algo comigo. Eu reagi. E ao contrário de muitas meninas aqui, ficou a sensação de culpa e derrota.  Essa semana eu fui abordada 3 vezes pelo mesmo homem. Todas as vezes enquanto eu tive que sair do trabalho por alguma razão (horário de almoço, saída do trabalho, intervalo para café). Ele não fez “nada demais”, não me tocou nem me ofendeu – a princípio – mas eu já ando cansada dessa repressão, dessa atitude de macho “alpha”, que se sente superior apenas por ser de um gênero diferente.  Lembro exatamente do primeiro dia porque eu estava muito mal por uma série de razões que não vêm ao caso. Passei na rua em direção à lanchonete e o homem gritou no meu ouvido “QUE CHARME, HEIN?”. Estava tão absorta em meus pensamentos que levei um susto e fiquei com muita raiva. Lembro de ter olhado para trás e gravado a fisionomia dele.  No outro dia, também em uma rua próxima, estava esperando minha carona para casa quando ele passou. Não disse nada mas ficou olhando de um jeito muito nojento. Fiquei sem reação, mas indignada de poder ser medida e invadida daquela forma, sem jeito de reagir.  No terceiro dia ele fez a mesma coisa do dia anterior. Não aguentei e falei pra ele: “parece que nunca viu uma mulher! que absurdo”. Aí ele virou e me respondeu com a cara mais lavada que “eu te olhei porque te achei muito bonita”. Respondi que aquilo é uma forma de constrangimento, que é por conta de pessoas como ele que não podemos ir à rua com segurança. Ele ficou muito nervoso e foi aí que comecei a ter medo. Disse que eu era recalcada, que eu precisa – cito integralmente aqui, apesar da linguagem chula – de uma piroca bem grande no meu rabo e que eu fosse pra puta que pariu. Respondi que ele precisava do mesmo e virei o rosto, fingindo que era não comigo. Ele foi embora e pouco depois voltou, passou do meu lado e me chamou de “horrorosa”. Respondi que estava aliviada dele pensar assim, mas por dentro estava morrendo de medo.  As pessoas ao redor ficaram me olhando como se eu fosse louca. Fiquei super insegura porque, por estar ao redor todos esses dias, ele provavelmente deve morar perto e tive que mudar meu trajeto trabalho-casa. De certa forma me arrependi de ter enfrentado esse idiota. Moro em uma cidade pequena, onde a cultura machista impera e me senti muito desamparada. Meu namorado me incentivou a dar queixa na Delegacia da Mulher, mas tenho inúmeras restrições contra esses “órgãos oficiais”, já ouvi inúmeras queixas de mulheres que sofreram novo abuso quando foram dar queixa.  Enfim, buscando não ser passiva, quem acabou prejudicada fui eu mesma, uma vez que agora nem meu trajeto diário posso mais fazer. Aqui posso desabafar o que não disse em meu perfil particular: sinto vontade de morrer quando essas coisas acontecem! Porque esse mundo não vai mudar tão cedo, e eu queria realmente parar de sentir essa falta de liberdade.”