eu sei que se você não fosse sapatão você ficava comigo – 1176

1176 – Oi, meninas. É a segunda vez em menos de um mês que escrevo pra cá, meu primeiro relato foi o 1153 – “Que delicia! Perai morena, fala comigo (Eu tinha 11 anos)”. Bom, tenho 19 anos e o que vou contar o que aconteceu no dia 15 de fevereiro deste ano, quando eu estava com meus “amigos” em um bloco de pré carnaval. O relato é longo e sei que muitas não terão paciência de ler porque eu não sei escrever sem colocar tantos detalhes, mas precisava compartilhar com alguém.

Eu sou lésbica, e há 1 mês terminei meu relacionamento de 2 anos. Desde que terminei fiquei muito mal, porque ainda gosto muito da minha ex, mas decidi seguir o conselhos dos meus amigos e resolvi que esse ano ia sair mais, me divertir mais, já que sempre fui muito caseira. Enfim, nesse dia meus amigos e eu tínhamos comprado bebida e eu que não tenho o costume de beber, resolvi fazer diferente (acho que eu pensei que se bebesse ia esquecer da minha ex, sim fui ingênua).

Eu sempre tive mais facilidade pra fazer amizade com garotos, me sinto mais a vontade com eles, gosto mais de conversar com eles. Estávamos eu e mais três amigos. Vou chamá-los de B, M e A. Eu os conheci no colégio quando tinha 15 anos e desde lá eles viraram meu “grupinho de sair”. Enfim, quando eu tinha 15 anos, o B gostava de mim, nessa época eu escondia gostar de meninas e só outros dois amigos sabiam. Esse B sempre me provocava e brigávamos direto e todo mundo dizia que era porque ele gostava de mim e eu não dava confiança pra ele. Isso foi no meu 1º ano do ensino médio. Eu realmente não gostava dele, achava abusado, intrometido e vira e mexe ele fazia gracinhas comigo. Não gostava nem de estar no mesmo lugar que ele.

Mas com o passar do tempo, ele “mudou”, continuou chato e intrometido, mas pelo menos não fazia mais nenhuma gracinha comigo e acabamos virando “amigos”. No 3º ano foi quando minhas amizades do colégio mais se fortaleceram, pois estudei em uma escola técnica e ele acabou fazendo parte do meu grupo de Projeto Final e TCC. Enfim, no 3º ano acabei contando para esses meus amigos da escola que sou gay. Minha mãe adorava o B e sempre puxava o saco dele, (ela não aceita minha orientação) e de vez em quando até falava na frente dos amigos que ia gostar se eu namorasse com ele. Minha mãe virou amiga dos pais do B.

Voltando ao que interessa, no sábado retrasado (15/fev), eu acabei bebendo mais do que o normal e fiquei muito tonta. Mas fiquei tranquila porque sabia que estava com meus amigos, em segurança. Só que, de vez em quando os outros dois iam ao banheiro e eu acabava ficando sozinha com o B. Até ai normal, nada demais. Mas teve uma hora que eu tava tão mal que encostei em um muro e quis esperar meus dois amigos voltarem. Eu só consegui lembrar claramente do que aconteceu alguns dias depois e mesmo assim não acreditei no início.

Em uma determinada hora em que fiquei sozinha de novo com o B ele falou “Eu acho que se você não fosse sapatão você ficava comigo heein”, mas falou em tom de brincadeira. Eu achei estranho e briguei com ele, porque sempre odiei que me chamassem de sapatão e sempre odiei que chamassem os outros assim (sapatão, viado, bicha, etc) mas como ele falou rindo eu levei na brincadeira e ignorei. Depois que meus outros dois amigos voltaram, conversamos normalmente e eu estava até esquecendo do que o B tinha falado. Mas eles precisaram sair de novo e eu fiquei sozinha com ele mais uma vez. Dessa vez ele perguntou “Fala sério, eu sei que se você não fosse sapatão você ficava comigo, não ficava?”  Aquilo me deixou com raiva, porque eu percebi que ele tinha falado sério e eu disse que não, de jeito nenhum. Ele tentou me beijar a força e eu já estava sem força por causa da bebida mas consegui empurrá-lo. Ele tentou de novo, segurou meus braços com uma mão e com a outra tentou forçar meu pescoço. Eu consegui dar um chute na perna nele, acho que pegou na canela e ele me soltou. Dei um tapa na cara dele. E nessa hora exata em que eu dei o tapa, meus dois amigos apareceram. O B ficou com muita raiva e me deu um soco no braço, não foi um soco MUITO forte, mas mesmo assim me machucou, afinal sou pequena e estava sem força nenhuma.

Meu amigo M chegou “Você tá louco? Tá batendo nela por que??”, e o cara de pau do B respondeu “Você não viu que ele me deu um tapa na cara? Ela que começou!”. Eu não conseguia dizer o que tinha acontecido, achei que tivesse imaginado aquilo. Durante aquele finalzinho de tarde, início de noite, o B passou a noite apertando meu braço com força, pra machucar mesmo e nessas horas eu acabava “gritando baixo” de dor, e meu amigo M ficava “Para com isso, você tá machucando ela. Ela é menina! Ela tá não tá bem”. O B ficava falando “Que não tá bem o que?! Ela tá fingindo que tá mal. Ela não tá bêbada!”.

Eu estava bêbada. Nunca tinha bebido daquele jeito e qualquer um via que eu não estava bem.

Não lembro muito bem como terminou a noite mas sei fomos pra uma pizzaria comer, pra ver se eu melhorava. Comemos e eu fiquei melhor, mas mesmo assim meu amigo M muito atencioso fez questão de me colocar no ônibus pra ir pra casa.

No dia seguinte eu só tinha alguns flashes de memória e achei que a dor no meu braço fosse porque eu tinha batido em algum lugar. Esqueci e não falei mais com eles.

No domingo da outra semana marcamos de ir em outro bloco, fomos. Fomos eu, minha prima mais nova, a amiga dela e o M e o B. Eu estava com raiva do B, não lembrava/sabia o motivo mas não sentia vontade de falar com ele. Curtimos o bloco e no finalzinho, ele, sob o pretexto de estar bêbado, começou a me provocar, jogar indiretas falando da minha ex, parecia querer briga. Eu me mantive paciente até que não aguentei mais e começamos a discutir. Discutimos e ele disse que eu era mal amada, insuportável, que era irritante e por isso minha namorada tinha terminado comigo. Eu fiquei com muito ódio e depois que cada um foi embora pra um canto, exclui esse garoto do face, apaguei o número da agenda e falei com minha mãe pra ela não falar de mim se alguém da casa dele ligasse. Ok, mais uma semana sem falar com meus amigos.

Já tinha marcado com meus amigos antes de irmos ao um bloco que teria em uma cidade aqui perto. Eu não estava falando com o B e até pensei em desistir de ir, mas pensei que não ia deixar que ele estragasse meu carnaval. Fui. Chegando lá, encontrei com todos e os cumprimentei, mas não falei com o B. Ele veio todo cínico “Oi pra você também. Como você tá?” eu só dei um “oi” bem seco e não falei com ele. Ele deve ter achado que eu não estaria com raiva e tentou conversar comigo mas eu não dei confiança.

Não bebi, mais uma vez. Decidi ficar sóbria e observar o que ele faria ou tentaria fazer. Ele tbm não bebeu tanto assim mas voltou a fazer gracinha. Começou a dizer que tava passando mal e teve a ousadia de me pedir “Eu to passando mal, Thati. Cuida de mim?” e já veio se apoiando em mim. Tirei a mão dele de mim e disse “Lembra daquele dia que eu tava mal e você disse que eu tava fingindo? Pois é, eu também acho que você ta fingindo. E fingindo mal, porque eu nunca vi gente passando mal dançando desse jeito, chegando nas meninas, levando 9 foras (falei pra jogar na cara) e conversando bem”. Ele disse que não tava fingindo e veio querendo colocar a mão em mim de novo, eu disse pra ele se virar e ele ficou com raiva. Ai tive a certeza que ele estava fingindo. Porque estava andando tendo que se apoiar e de repente começou a andar bem! começou a andar normal!

Mas na frente dos nossos amigos ele fingia que tava ruim. E aproveitava pra jogar indiretas pra mim, de novo. Eu não podia ir embora sozinha porque estava em outra cidade e era madrugada, então tive que aguentar tudo. Mas ele continuou insuportável, encostando em mim e dizendo que eu era chata. Passando a mão no meu cabelo, ofendendo. Fomos embora depois de 3 horas aturando aqui e no caminho pra casa de um amigo, B continuou irritando, até que apareceu um cachorro (ele morre de medo) e ele veio querer pegar no meu braço;. Eu mandei soltar e ele disse que amigos tinha obrigação de proteger os amigos. Eu disse “Engraçado, não acho que amigos tenham essa obrigação mas mesmo se tivessem eu não lembro de você fazendo isso naquele dia. Se precisa de amigos vai procurar, se vira. Ele então me ameaçou, disse que era pra eu ter cuidado porque se minha mãe ligasse pra casa dele ele ia contar pra quais boates eu vou quando saio, com quem eu vou e ia contar da minha namorada (namorei “escondido” pq minha mãe não aceita). Fiquei com um ódio enorme.

Chegamos na casa do meu amigo. Eu não queria ficar no mesmo cômodo que ele mas ele ia atrás, queria ficar encostando em mim, pegava meus óculos. Até que eu gritei ” Se você encostar em mim de novo, eu vou te dar uma surra. Vou te bater como sua mãe e seu pai nunca bateram”. Ele começou a rir e disse “Você acha que só porque é mulher eu não vou te bater também?”. Mas parou. Ele é do tipo que foge quando tem briga, não sabe brigar com homens, só faz o machão quando tem mulher envolvida. Meu amigo M falou pra ele me deixar em paz mas logo depois ele voltou a encher o saco. Voltou a querer pegar no meu braço, pegar meus óculos e eu dei um soco nas costas dele, ele não fez nada. Começou a dizer que eu era mal amada, que ninguém gostava de mim, que minha mãe gostava mais dele do que de mim (que babaca –‘), que eu merecia ter levado um pé na bunda mesmo.

Eu não aguentei, quando todos foram dormir eu continuei acordada e quando o primeiro ônibus passou, eu peguei enquanto eles ainda dormiam. Quando acordaram e não me viram começaram a ligar pro meu celular mas eu não atendi. Ele ligou pra minha mãe, mas como ela já sabia do que ele tinha feito antes (discutido e ofendido), ela não deu muitas informações.

Eu estou com muita raiva. Sempre li coisas do tipo, relatos de “amigos” que abusaram ou fizeram pior com as amigas. Nunca achei que ia acontecer comigo. Saber que confiei segredos a essa pessoa e que ele me ameaçou com eles me dá muito ódio. Minha vontade é de pagar alguém pra dar um susto nele já que só sabe crescer quando tá falando com mulher. Quero toda a distância do mundo desse garoto, que raiva.