‘Eu sei que você quer, está só se fazendo de difícil!’ – 1223

1223 – Me dói fortemente saber que esta é a terceira vez que escrevo para esta página, me dói porque a partir de uma análise pessoal de que relatei um caso de abuso infantil, um de cantada de rua seguida de ameaças e, agora, um caso de violência sexual, a partir disso percebo que todas as vezes que banalizam nossa causa ou que nos acusam de coitadismo isso me atinge diretamente, e rememoro todas as lágrimas, todas as noites sem dormir, todas as seqüelas físicas e psicológicas que cada uma destas, e muitas outras, violências me proporcionaram. Mas, resgato as forças do fundo da minha alma, as que sobram, as poucas e rasas que consigo cultivar, para descrever aqui o que me ocorreu recentemente. Faço isso porque sei a força das palavras, sei que quando as pessoas vêem o quão forte (infelizmente) é esta opressão e suas conseqüências, elas conseguem identificar enquanto opressão e desnaturalizá-la. Porém, que não nos limitemos apenas às palavras. Vou tentar ser o mais direta possível, relembrar também faz com que a dor retorne: “Fui convidada para participar de uma festa em uma República de alguns garotos da universidade, muitos amigos meus também compareceram. Bebemos, dançamos, conversamos, nos divertimos, como esperado, caracterizando tais festas muito comuns no meio universitário. No decorrer desta um dos moradores da casa começou a ‘flertar’ comigo, demonstrei interesse também, trocamos alguns beijos, acontece que eu não tinha vontade de qualquer relação para além daqueles beijos, estava muito bêbada e só queria ir pra minha casa. O mesmo indivíduo ofereceu uma carona até a minha casa, aceitei. Ele esperou as pessoas irem embora e disse que iria usar o banheiro, para eu, enquanto isso, o esperar na sala, ao que me encaminhei para lá. Quando ele saiu do banheiro veio em minha direção insinuando que tivéssemos uma relação sexual, eu recusei claramente, disse “Não” e me retirei, ele, não aceitando, ou não acreditando na certeza da minha negação me prensou na parede e quis fazer nem que fosse à força, repetia diversas vezes ‘Eu sei que você quer, está só se fazendo de difícil!’, eu dizia o tempo todo que não, mas ele apertava meus braços com uma das mãos enquanto com a outra batia diversas vezes na minha cara e puxava meu cabelo, eu tentei gritar, tentei reagir, pedi para que ele parasse, mas ele ficou um tempo considerável dando seqüência a esta tortura, o pior era ouvir toda uma culpabilização que ele profanava ‘Você que procurou, se não quisesse não tinha me beijado!’. Quando ele percebeu que não conseguiria nada com isso, a menos que me machucasse mais, ou, não sei ao certo o que aconteceu, ele me soltou. Eu, com muito medo, me sentindo muito mal só quis ir embora. Sai daquela casa com a promessa de que nunca voltaria. O pior é que não consegui dizer pra ninguém o que aconteceu, demorou alguns meses para que eu pudesse desabafar até com a minha melhor amiga, procurei uma advogada e agora não sei se entro ou não com um processo, pelo desgaste, pelas perguntas que terei que ouvir, por tudo. Sabe, ele acha que tem o direito de comentar em algumas postagens feministas minhas em grupos da universidade que sou RADICAL, isso é o que mais me irrita, um opressor, violentador, estuprador, vem me dizer que sou radical por lutar contra pessoas justamente como ele. As seqüelas ainda me atormentam, cada tapa, cada puxão de cabelo, cada palavra, eu não me sinto e nunca irei me sentir culpada, eu ameacei ele, já tive devaneios, vontades de fazer justiça com as próprias mãos, mas desisti.

Mas contar ainda é uma solução!