eu só queria correr pra muito longe dali – 701

Relato de um homem. Muito interessante, mostra que o sentimento de impotência, culpa e frustração é o mesmo.  701 – “Olá. Moro no Rio de Janeiro, tenho 17 anos de idade, curso o terceiro ano do Ensino Médio e moro numa região abastada da cidade. Sou de uma família bastante conservadora, a maioria dos homens da minha família são militares e rigidez sempre foi uma constância na minha vida. Sou branco, heterossexual e entendo que não devo me enquadrar no tipo de pessoa que costuma enviar mensagens para cá, mas uma amiga me recomendou a página e me encorajou a fazer esse relato. Pois bem, era uma segunda feira ensolarada e tocou o alarme do recreio na minha escola. Como de costume, eu saí da escola para comprar um Mate Leão num posto de gasolina não muito longe dali, aproveitando o belo dia para dar uma caminhada. Enquanto eu caminhava, percebi um carro parando bruscamente à poucos metros a minha frente, e de dentro saiu um rapaz jovem, um pouco mais baixo do que eu, moreno e de cabelo raspado. Ele me pediu ajuda, disse que o carro não estava funcionando direito e perguntou se eu poderia ajudar. Eu prontamente disse que sim e, enquanto ele abria o capô, eu entrei no carro e pisei no freio conforme ele pediu. Após ele mexer um pouco no motor do carro, ele entrou, sentou no banco do carona e perguntou se poderia se apoiar na minha perna para mexer debaixo do volante. Eu deixei, não pensei que fosse dar em nada. Mas foi aí que ele começou a se ”aproveitar”. Enquanto ele mexia com uma mão embaixo do volante, a outra ele posicionava de forma com que ela ficasse bem no alto da minha coxa. E começo a avançar, avançar, avançar. Na hora eu gelei, pensei que não fosse verdade, pensei que fosse invenção minha, e me penitenciei por pensar que algo tão absurdo pudesse ser verdade. Após alguns minutos, ele voltou a sair, olhar o motor lá fora e depois retornou e fez tudo novamente, cada vez mais ousado. E, quanto mas ele mexia, tocava e apertava (sempre fingindo que nada estava acontecendo), mais desesperado eu ficava. Não sabia o que pensar, o que dizer, eu só queria correr pra muito longe dali. Na quarta vez que ele entrou no carro, eu disse nervosamente que precisava ir embora. Os segundos pareciam décadas, e enquanto eu dizia isso já me preparava para ter que lutar para sair daquele lugar. Ele, surpreendentemente, começou a me falar sobre o quão preocupado ele estava com uma prova da faculdade e que ele precisava muito chegar lá a tempo, e pediu para terminar de mexer, pois faltava pouco. Eu disse que não, pois não podia faltar a aula, e então ele pediu para eu pisar no acelerador. Eu obedeci, e vi um sorriso brotar rapidamente no rosto dele quando o carro respondeu dócil ao meu comando. Saí dali e voltei andando para escola. Eu pensei no que meus amigos diriam, no que meus tios fariam comigo se eles soubessem do episódio. Pensei em como eu pude permitir algo assim, pensei e me desesperei, e cada vez que eu pensava mais desesperado eu ficava. Prometi a mim mesmo nunca falar disso com ninguém e nunca tocar no assunto. Desde então isso morreu para mim. Meu esforço não é para conter o medo de sofrer algum abuso similar, e sim para conter o ódio que eu sinto de mim mesmo por ter me submetido a isso. As vezes eu acho que a culpa foi minha, e lembro do sorrisinho cínico dele. Espero que ninguém nunca passe por algo parecido, por que a dor não é só momentanea. Ela é para sempre.”