Eu só quero um abraço, somos amigos… – Cantada 728

728 – “Foi no meu primeiro emprego… Eu tinha 21 anos e jamais imaginaria que passaria por isso… principalmente por conta da sutileza. Muitas vezes, mulheres passam por situações que aparentemente não configuram assédio. As pessoas ficam em busca dos detalhes mais brutos da coisa e esquecem a violação do espaço, do toque não consentido, da sedução não correspondida e insistente. E por muito tempo eu fiquei achando que seria coisa de minha cabeça, mas AINDA ASSIM eu me sentia culpada. Então, se não era nada demais, porque eu me sentia e me sinto tão culpada assim, afinal?  Eu trabalhava numa empresa onde eu era a única mulher que transitava pelos corredores, e a outra ficava trancada numa sala, na contabilidade. Haviam uns 8 rapazes.  Um desses rapazes, muito gentil e discreto trabalhava há anos nessa empresa. Diziam à boca miúda que ele tinha algumas amantes fixas e que a esposa dele era muito, mas muito ciumenta… Mas nunca conversamos muito sobre o assunto, apenas sobre amenidades. Mas ele se aproximou demais como amigo, nunca entendia de fato o que ele queria… ele sempre me cumprimentava pegando em minha mão, era uma mão macia, limpa e que sempre estava quente. Pareciam mãos de anjo, mas eu sentia que tinha alguma coisa de errado.  Depois de muita conversa, ele disse: “Ei, você é muito bonita, sabia? vem cá, me dá um abraço? Eu só quero um abraço, somos amigos, mas podemos ser o que mais você quiser… A gente pode sair de vez em quando, só nós dois… Só um abraço, vai…”  Volta e meia ele propunha isso, e eu desconversava e saía.  Depois de muito desviar o assunto e evitar ficar às sós, ele me convenceu que não seria nada demais. Ele me abraçou profundamente, não pegou em partes íntimas, apenas me envolveu contra seu peito e pôs as mãos nas minhas costas… 1 minuto que pareceu uma eternidade, meus batimentos cardíacos aceleraram de imediato e eu tive a sensação de que passaria mal, fiquei muito nervosa. Quando ele finalmente me soltou, senti que estava fazendo algo de errado, mesmo que aparentemente não fosse. Isso ocorreu cerca de 3 vezes, sendo que eu não tive como escapar, eu fiquei paralisada. Eu me sinto culpada por não conseguir sair dali, por permitir isso, por me deixar convencer. Eu não sei explicar o que ele fez, mas eu sei que era errado, não queria essa proximidade. Eu sentia que nesse abraço ele parecia roubar alguma coisa minha, eu me sentia cada vez mais vazia após isso. Eu me sentia suja.  Passei a evitar com mais ímpeto de ficar às sós com ele, porque não sabia o que mais ele inventaria pra poder fazer qualquer coisa a mais comigo… mas eu teimava em imaginar que seriam coisas de minha cabeça, até começar a ter pesadelos onde de fato acontecia alguma coisa… eu era virgem, e parecia que ele farejava isso… Qualquer oportunidade que houvesse, ele tentava se aproximar de mim, ele me olhava daquela forma, que todas as meninas que já passaram por algo assim sabem… é um olhar que parece despir a gente… é difícil falar sobre isso, eu me sinto muito mal quando lembro dessas coisas, nunca comentei esses detalhes com ninguém.  Um dia, sabe-se lá como, a esposa de um dos rapazes que trabalhava lá, (ela frequentava a empresa) descobriu que ele estava me cercando e meio e me abordou “jogando verde” pra eu contar o que estava acontecendo. Eu tentei conversar, mas não saiu muita coisa, pois eu tinha muito medo. Mas foi o suficiente pra ela “entender”.  Algumas semanas depois, eis que o meu namorado, que não conhecia ninguém da empresa, confuso, vem me perguntar o que houve pois ficou sabendo de uma história que eu teria UM CASO com homem casado no trabalho, e que eu estaria dando em cima de TODOS os homens de lá. Eu disse que não, que tinha UM ÚNICO dando em cima de mim, mas que eu não tinha feito nada e mal sabia como agir… Aí começamos a buscar como a história surgiu, e descobrimos que ESSA MULHER, a esposa de um dos rapazes, ela simplesmente saiu falando de mim por aí, meteu o próprio marido no meio da conversa e a história caiu no ouvido do melhor amigo de meu namorado, que sem acreditar em nada passou a informação pra ele. Ficamos estarrecidos e não fazemos idéia do tanto de gente que ficou sabendo, porque até nas redes sociais pessoas que não me conheciam o suficiente me recriminavam e soltavam piadinhas questionando minha moral.  Sabe, eu me senti como se o céu tivesse caindo em minha cabeça, como pode… Uma mulher que se dizia minha amiga, que jurava que me ajudaria simplesmente armou uma fofoca dessas enquanto eu era assediada, enquanto eu precisava de ajuda. E eu nem contei de fato o que havia ocorrido. Discretamente passei a cortar toda a aproximação que havia entre a gente, como ela era mais velha, eu tinha ela e o esposo como meus tios, o esposo dela NUNCA me fez nada de mal, sempre me ajudava no trabalho, me ensinando as atividades, e eu fiquei de coração partido por ver como uma pessoa foi capaz de passar por cima de toda a consideração que eu tinha pra inventar uma história macabra dessas ao invés de buscar me ajudar. Nunca mais olhei meu ambiente de trabalho da mesma forma, nunca cheguei a fazer amizades de verdade em nenhum lugar por onde passei após isso por medo de me interpretarem mal, passei a me isolar mais quando entrei na faculdade… Dá pavor de lembrar dessa história. Eu só me pergunto PORQUÊ e PRA QUÊ ISSO?”