Eu tinha 11 anos quando senti medo pela primeira vez – 766

766 – “Eu tenho 17 anos.
Mas eu tinha 11 anos quando senti medo pela primeira vez. Será que é falta de bom senso duma menina ir encontrar a mãe na rua usando uma saia? Buzinaram, gritaram coisas grotescas que me assustam até hoje e me chocam se eu parar pra pensar que eu era totalmente uma criança quando eu apertei a mão da minha mãe e abaixei a cabeça, chorando. Chorei de medo, de vergonha de mim mesma. Passei um verão inteiro de calor em calças jeans.
Hoje eu tenho 17.
Mas eu tinha quinze anos quando minha amiga chorou e me contou que ela tinha bebido e o namorado dela e mais dois meninos que eu conheci – um deles que eu cheguei a ter uma quedinha, pelo amor de Deus! – tinham obrigado ela a tirar a roupa e passaram a mão nela, enquanto ela chorava pedindo pra pararem. E toda vez que a gente fala nisso e ela chora eu sinto vontade de chorar junto, porque apesar de não ter estado lá e vivido aquele inferno, isso me feriu e me magoou, de saber que minha melhor amiga nunca contou pra mãe isso e que ainda namorou aquele porco por mais seis meses.
Eu tinha 16 quando desci do ônibus pra ir na casa da minha amiga e no meio do caminho, um grupo de uns quatro ou cinco homens (e uma mulher junto!) me encurralou na rua, abriram os braços, avançaram em mim e um deles até tocou no meu cabelo. Vomitei virando a esquina e preferi voltar pra casa. Me senti criança de novo, vulnerável, envergonhada. Tava com um vestido florido e flores na cabeça. Fazia meses que eu não conseguia me sentir bonita e passei os meses seguintes sem conseguir me achar bonita novamente. Tinha 16 anos as duas vezes que saí do ônibus chorando porque de repente, no meio do aperto, eu acabei percebendo que tinha um cara com a mão na minha perna, quando aquele esbarrão de mão entre minhas pernas não foi tão acidental assim?
Mas eu já tenho 17!
Eu tinha 17 anos quando fui numa balada com uns amigos, mas não consigo parar quieta. Fala uma hora com eles, outra hora com outros amigos, parava e conversava com estranhos, saracotiava sem parar. Gosto de festa, gosto de gente desconhecida, gosto de conversar e virar as costas quando me entedio. Não gosto quando vêm dar em cima de mim, seja conhecido ou desconhecido; talvez pela minha personalidade extravagante me confundam por liberal, mas pra mim só um beijo já é coisa séria. Eu tinha dezessete anos quando queimei o rosto de um cara de quase trinta que veio conversar comigo perto demais. O nariz dele tava quase encostando no meu, de tão agressivo que ele era e eu tava assustadíssima. Botei o cigarro na minha frente e disse que aquela era a distância que ele tinha que manter, senão eu queimava ele. E queimei.
É que eu só tenho 17…
Posso me sentir madura o quanto eu quiser, mas eu sou vulnerável. Será que é por que eu sou só uma adolescente, será que é porque eu nasci mulher num lugar onde isso me põe em perigo? Será que mostrar o dedo do meio prum cara que me buzina me torna menos vulnerável? Será que a cuspida no chão quando um homem passa e mexe comigo é uma rebeldia ou é o reflexo do medo que eu sinto? Fico remoendo, pensando nesses e em tantos outros episódios. Procuro o que eu poderia ter feito pra evitar, o que eu poderia ter feito pra rechaçar, penso em quantas mulheres esses covarde já fizeram chorar? Cada vez que algo me acovarda, seja na rua, numa festa, num ônibus, cada olhar que eu recebo que não tenho certeza se é meramente curioso ou se têm malícia; cada “psiu”, “ei gostosa”, cada assovio, cada buzina; cada mulher que eu vejo sendo assediada, cada notícia de estupro… Às vezes eu perco a fé e acho que não sou a única a perder, mas tento manter o foco e a coragem. Quem sabe ser mulher é mais fácil que ser menina, mas vai que daqui pra frente é só ladeira abaixo?”