Fazia sexo sem prazer, me ensinaram que “é assim mesmo” -1102

1102 –  Eu nunca falei sobre isso com ninguém porque sempre achei que foi ingenuidade minha, que eu deveria saber o que estava fazendo, que se eu não falei nada é porque eu queria…Mas eu acho que o conceito de a mulher estar à vontade exige o mínimo de sensibilidade do parceiro, mesmo que seja só por uma noite…

Eu sempre fui muito insegura em relação a sexo. Sempre achava que ninguém ia gostar de mim e que eu era muito ruim em dar prazer, em seduzir, essas coisas. Aí eu me forçava a aceitar quase que qualquer coisa pra me sentir menos excluída. Mesmo que eu não sentisse quase que prazer nenhum naquilo…

Enfim, teve um dia que um “amigo” me chamou pra ir à casa dele, os pais dele não estavam, e eu fui, sabendo que talvez rolasse alguma coisa. Cheguei lá e de cara não me sentia muito bem, mas eu pensei que era tudo da minha cabeça e que devia ser assim mesmo. A gente ficou conversando um pouco, até que do nada ele começou a me beijar e a tirar a minha roupa, e eu acabei deixando, e daí pra frente a gente fez tudo o que ele queria, e eu não conseguia fazer nada além de me sentir mal e querer ir embora, mas eu fiquei lá, aguentando… Eu era praticamente um peso morto na cama, fingindo que tava tudo bem… E em nenhum momento eu senti que ele se preocupou comigo, nem percebeu como eu estava triste por dentro e calada por fora. Quando eu saí da casa dele eu percebi que eu tinha sido estuprada e eu senti um nojo imenso de mim mesma. E demorei dois anos pra me abrir porque foi muito difícil entender que não foi culpa minha. A vida toda as pessoas me ensinaram (até inconscientemente) que todo mundo tem que fazer sexo, que ser virgem com dezoito anos é bizarro, que o sexo devia ser daquele jeito, e eu tinha a autoestima baixa demais pra entender que não! Eu escolho! eu sou uma mulher, um ser humano que merece ter o sexo que deseja ter, e que sim, eu tenho o poder de dizer não e de me proteger, porque eu sou muito mais do que as pessoas querem que eu seja, e tem muita gente no mundo que vai gostar de mim como eu sou. Hoje, conhecendo o feminismo, eu percebo como na época eu não me dava valor como pessoa, e acabava me fazendo de brinquedo dos outros só para eu me sentir menos pior (o que na verdade só me prejudicava mais). Acho que muita gente não vai me entender e vai me julgar, dizer que eu tava pedindo, mas eu quero dividir essa dor mesmo assim pra que outras pessoas possam sentir que não estão sozinhas e que não, não foi culpa delas. Hoje eu me entendo melhor e sei que, pra mim, transar é um diálogo íntimo muito sutil e bonito, em que as duas pessoas se abrem com vontade e confiança, nada perto daquelas minhas primeiras experiências, em que eu me forçava várias vezes a ser submissa a um cara que eu detestava. E espero que daqui pra frente cada vez menos mulheres tenham que passar por uma dor tão grande pra se tornarem suas melhores amigas e apreciarem o sexo com prazer e autonomia.