fez um barulho nojento com a boca – Cantada 734

734 – “No começo do ano eu precisava pegar ônibus todos os dias para ir pra faculdade. Eu andava meio quarteirão de casa até o ponto, mas já era o suficiente. Uma vez, respondi um “gostosa” ou algo do tipo com um “eu não te dei o direito de falar comigo assim, você me respeita!”. Em outra situação, eu estava atrasada e tinha brigado com a minha mãe antes de sair de casa, ou seja, estava super triste e irritada. Na calçada do ponto, andando de cabeça baixa, vi que havia um homem vindo em minha direção. Só o tinha identificado como ‘homem’ porque era uma silhueta grande/alta. Andei um pouco para o lado, esperando que ele fizesse o mesmo para desviar de mim, mas quando eu passei ele se inclinou para o meu lado, quase encostando, e fez um barulho nojento com a boca. Olhei pra trás e gritei “ESCROTO, FILHO DA PUTA!!”. As pessoas do ponto nem se mexeram. Comecei a chorar, logo meu ônibus chegou, continuei chorando. O ônibus inteiro olhando pra minha cara. Naquele dia, fragilizada, de humor péssimo, eu vi o quanto é fácil se concretizar o medo enorme que eu tenho de, algum dia, as agressões verbais se tornarem físicas. Me vi frágil, vulnerável. Meu grito de resposta não foi consciente como geralmente é, foi instintivo, e foi seguido pelo choro e pelo medo.  Meu caso não chega nem perto de outrxs que sofrem todos os tipos de abusos por aí, mas eu me permito “dramatizar”. Não quero diminuir o que eu senti. Não acho que ninguém deva diminuir nenhum desses sentimentos. Só cada pessoa sabe o quanto cada caso a afetou, e todos eles fazem parte de um coletivo que nós temos que derrubar juntxs. Mais do que nunca, obrigada pelo espaço.”