ficar calada não diminui a opressão – 596

596 – No dia 24 de maio passei por uma situação bastante TENSA…  Chegando da faculdade, logo após descer do ônibus, passei por um cara bêbado cambaleante que começou a mexer comigo.  A educação patriarcal introjetada fez com que minha primeira reação fosse fingir que não tinha ouvido e começar a andar mais rápido. Só que o cara começou a me seguir. Foi então que me passaram rapidamente pela cabeça todas as opressões que nós, mulheres, sofremos há milênios, e também tudo o que aprendi e descobri desde que me reconheci como feminista. Percebi que precisava de força e coragem pra acabar com aquilo.  Foi então que eu parei. Virei para trás. Olhei no fundo dos olhos do homem e gritei com todo o ar dos meus pulmões: “FIQUE ONDE VOCÊ ESTÁ, SEU CRETINO. VOCÊ NÃO VAI ME SEGUIR, SEU BOSTA”. ~apontando o dedo indicador para a testa dele~  A sociedade sempre espera passividade e submissão das mulheres, então, como previsto, ele ficou cerca de uns 15 segundos sem reação alguma, todo abobalhado com a merda da lata de cerveja na mão.  Virei e continuei andando. Depois de alguns segundos o cara voltou a falar coisas que eu não conseguia entender. Virei de novo e gritei: “NÃO!”  Logo depois apareceu uma pessoa conhecida (cuja identidade vou preservar) que, na tentativa de me proteger, me mandou ir pra casa, naquela fatídica prática paternalista e autoritária de ~deixa que eu cuido disso, isso não é coisa pra mulher~, e eu apenas pedindo para irmos embora e evitar uma briga ou algo mais grave. Quando finalmente saímos daquela situação, como previsto fui culpabilizada pelo ocorrido. A pessoa me disse que eu não deveria ter respondido quando o bêbado mexeu comigo.  Moral da história: Sim, eu tenho plena consciência do risco que eu estava correndo e não estou sendo mal agradecida pela ajuda que essa pessoa me deu. No entanto, minha decisão por reagir se deu, em primeiro lugar, porque, aparentemente, o cara estava desarmado e vulnerável pela alteração de consciência ocasionada pela bebida. E, segundo, porque NÃO REAGIR provavelmente me colocaria em uma situação de risco ainda maior, como evidenciam diversas estatísticas de violência contra as mulheres (não reagir não evita a violência).  É preciso que se entenda que ficar calada não diminui a opressão contra nós, pelo contrário, mantém muitos caras em uma situação de conforto para nos assediar e nos violar. E essa zona de conforto tem que ser destruída.