ficavam passando a mão no meu cabelo – 642

642 –  Tinha 14 anos e frequentava o último ano do ensino médio (8ª série) de manhã e à tarde tinha iniciado um curso preparatório para colégio técnico. O cursinho era perto do prédio onde eu morava, por isso ia caminhando, e ouvindo comentários do tipo “princesa”, “linda”. Sempre fui muito feia. Fiquei contente, quando um mês depois mudei para um pouco mais longe, e precisaria pegar ônibus para ir para o cursinho. Já faz 13 anos, mas me lembro muito bem da minha alegria por achar que não seria mais incomodada por ninguém no trajeto cursinho-casa. Ledo engano. Tinha o cabelo natural, castanho bem escuro, quase preto, liso, comprido e muito volumoso. Era um cabelo muito mal cuidado, oleoso, sujo, embaraçado, tanto pela falta de dinheiro, falta de informação quanto pelo desinteresse de me cuidar. Só queria minha aprovação no final do ano.  O ônibus parava numa escola estadual onde subiam muitos alunos. Alguns meninos se interessaram pelo meu cabelo. Resultado: Na minha hora de descer, eles ficavam passando a mão no meu cabelo. Eu sentia nojo. E muita raiva de mim mesma. Depois de várias vezes com a situação se repetindo, contei aos meus pais.  “Não deixa não.” – minha mãe. Meu pai? Nem fez questão de prestar atenção. Claro que eu xinguei. Obviamente eles me xingaram de volta. E para completar, foi numa época em que não havia cobrador. E como sempre, ninguém fazia nada. “Não deixa não.” Fácil, né? Eles estavam mexendo no meu cabelo porque EU DEIXAVA. Foi a primeira vez que me senti desprotegida, sem ter a quem recorrer. Minha solução foi sair mais cedo da aula. Estudar sozinha em casa. Tinha 40 vagas e 1031 candidatos. Fiquei em 187º. Se isso não tivesse acontecido, não digo que teria sido aprovada, mas tenho certeza que minha colocação teria subido umas 40 posições.  Além desse medo que demorou anos para passar, hoje fico pensando que eles poderiam ter me empurrado do ônibus, e tenho certeza, ninguém seria punido, eram apenas meninos.