fiquei me perguntando “Será que escapei de um estupro?” – 1968

1968 – Receber cantada na rua é, infelizmente, a coisa mais comum pra mulheres e são tantas as histórias que apenas uma mulher tem, que fica até difícil “escolher” a pior situação que já se passou para relatar.
Decidi então contar dois casos, um que ocorreu comigo em Salvador e outro no Rio de Janeiro. Sou baiana, mas moro no Rio e o que não falta é história dos dois lugares. No fim das contas, você percebe que não faz diferença o lugar, porque se você for mulher o tratamento que lhe dão é sempre o mesmo: de agressões, de abusos, de machismo escancarado, doloroso e perigoso.
São dois casos que envolveram alguma perseguição. Vou começar pelo que tem mais tempo, que ocorreu em Salvador: fui tomar uma cerveja com meus amigos no fim da tarde, num dos bairros mais boêmios e movimentados da minha cidade. Peguei o ônibus com uma amiga e saltamos no ponto em frente ao lugar marcado com o pessoal da faculdade. Ao descer no ponto, um homem que eu nunca havia visto na minha vida começou a me assediar e a coisa foi especificamente direcionada a mim, não sei porquê. Atravessamos a rua e ele foi atrás de nós, sem parar de falar coisas absurdas em nenhum momento. Pensei que quando chegássemos ao bar, ele pararia, mas não foi o que ocorreu, ele continuou atrás e ficou ao meu lado falando as piores coisas do mundo. Tentei ignorar, sentei na mesa com um amigo já nos esperava, mas o cara continuou a me humilhar. Gritava coisas totalmente surreais e o bar inteiro me olhava, o bar quase todo composto por homens naquele momento, e que não fizeram nada, senti olhares até mesmo reprovadores para mim, como se eu tivesse provocado esse homem descompensado que me perseguia. O cara gritava coisas como: “essa aqui não parece, mas é uma puta, puta mesmo, puta que comi por 10 reais”. Tudo aquilo era tão surreal, que eu nem sabia direito como agir, meu amigo também ficou incomodado, mas não sabia o que fazer também. Em algum momento, depois de infinitos minutos de terror pra mim, ele simplesmente se cansou e foi embora. Você pode pensar que o cara era louco, drogado, esquizofrênico, sei lá, mil desculpas podem ser inventadas para que ele tenha agido dessa forma totalmente arbitrária comigo, uma mulher que ele não conhecia, mas não é tão simples. O machismo deu a ele (louco ou não, dependente de drogas ou não) essa liberdade de agredir uma mulher e não ser culpabilizado e punido.
A outra história, já no Rio de Janeiro, foi tão assustadora quanto, apesar de eu não ter ouvido nem uma palavra vinda do meu assediador e não ter passado pela humilhação imposta pelo homem do relato anterior. Mas dessa vez eu senti que de fato, escapei de um estupro. Era verão no Rio de Janeiro e vocês podem ter um noção do calor que estava. Eu estava voltando do salão de beleza que havia ido no bairro vizinho e desci de ônibus no ponto mais perto de casa, que não é tão perto, cerca de 2,5km longe. Eu tinha dois caminhos que poderia fazer e simplesmente pensei em pegar o mais sombreado, porque eu estava derretendo e eram 3 da tarde do verão carioca. Não parei pra medir milimetricamente sobre os possíveis perigos dos caminhos, apenas pensei que não queria passar mal de calor e só. Então fui por esse caminho lindo, gostoso, sombreado e que fica numa área quase que totalmente residencial, ou seja sem muito movimento durante o dia. Eis que um carro preto, de vidros pretos, começa a me seguir. De começo eu fiquei de boa, mais uma vez ignorando a presença de um homem atrás de nós, como boa parte das mulheres faz na rua. Mas o carro não parou de me seguir e ia na mesma velocidade dos meus passos curtos de uma mulher pequena, de 1,50m. Ia muito devagar para um carro. O vidro baixou e o cara sem falar nada ficou me olhando fixamente e me acompanhando. Isso durou muitos metros e eu comecei a ter certeza que poderia ser um estupro, aquele olhar, a falta de palavras, o carro devagar e de vidro escuro. E ai me lembrei daquela máxima de que as coisas acontecem quando estamos mais perto de casa e ficamos mais vulneráveis e na mesma hora comecei a surtar por dentro e me prometi que eu reagiria, que foda-se o que a policia fala, que eu ia dar uma de louca se ele saísse do carro. Fiquei estudando a situação e pensei em correr feito aqueles bichos perseguidos por um leão na savana africana, mas ele tava de carro, ele correria mais que eu, isso era um fato. Pensei em começar a gritar loucamente e do nada, mas quem me ouviria? Tava vazio e eu tava só com aquele homem me olhando e me perseguindo. Então decidi pegar meu celular e liguei pro meu namorado, que coitado, tava no trabalho e nem teria o que fazer, mas minimamente alguém precisava saber o que tava rolando. E falei pra ele bem alto, olhando pra cara do homem, que eu estava na rua tal e estava sendo perseguida por um carro de marca X preto. Óbvio que meu namorado ficou doidinho do outro lado da linha, mas isso de alguma forma assustou o cara. Eu não sei se ele imaginou que eu estava ligando pra polícia, ou se ele ficou com medo de eu tirar uma foto da cara dele, não sei mesmo, sei apenas que meu celular foi uma arma muito poderosa e ele virou na rua transversal seguinte e ficou parado de lá um tempo me olhando pelo retrovisor. Continuei falando com meu namorado e agarrei essa deixa e corri pra casa, já estava mais perto e cheguei em segurança em casa, ainda bem. Mas cheguei com o coração desesperado, a cabeça confusa e a pergunta no ar: “meu deus, será que eu acabei de escapar de um estupro?”.