Fui assaltada e pensei “Pelo menos eu estou de calça” – 1232

1232 – Com tantos relatos aqui na página, resolvi contar um que aconteceu comigo e mais duas amigas que passavam férias na minha casa, em Salvador. Contei pra muita gente, mas ninguém se importou, como se fosse algo natural.

Estávamos eu e minhas duas amigas voltando da minha aula noturna da auto escola, tínhamos cerca de 19 anos. A aula havia acabado por volta de 21:30 e a escola era num bairro bem movimentado e boêmio da cidade. Fomos andando do local onde fiz a aula até um supermercado que tinha um ponto de ônibus na frente.

Pouco antes de chegarmos na esquina que fica o mercado, fomos assaltadas por dois homens armados. Até então, tudo bem, apesar do assalto, apesar do olhar dos homens que nos assaltaram. O problema foi depois. Todos viram, o lugar estava lotado e, assim que os homens foram embora, vieram perguntar o que tinha acontecido. Ao contarmos do assalto, todo mundo começou a questionar porquê estávamos andando sozinhas naquele bairro essa hora da noite, que era sorte nossa só ter sido um assalto e esse tipo de coisa. Somos todas feministas, mas preferimos nem entrar na discussão já que estávamos abaladas com o acontecido.

Alguns minutos depois, o segurança do mercado parou um carro de polícia e contou o que aconteceu conosco. Resumindo: os policiais nos obrigaram a entrar no camburão pra ir atrás dos assaltantes com eles e identificá-los. Minha amiga dizia o tempo todo pra parar o carro que ela iria descer, que não queria ir junto e não havia necessidade. Depois de um tempo com eles andando em ruas que eu não conhecia, e ignorando nossos pedidos pra descer do carro, voltaram ao mercado. Descemos todos e os dois policiais começaram a chamar nossa atenção de forma rude, dizendo que estávamos claramente com medo deles, e que isso era uma ofensa, um INSULTO, pois eles eram policiais honestos e nós deveríamos saber separar o joio do trigo. Enfim, ouvimos todo tipo de acusação pelo simples fato de que não queríamos entrar num carro com dois homens! Fossem eles policiais ou não, fossem eles honestos ou não! Se tivesse acontecido alguma coisa dentro do carro, a culpa seria de quem? Dos policiais é que não, né. E o trauma ficaria com quem? Foi horrível ouvir todo tipo de acusação como se a culpa de tudo que tinha acontecido fosse nossa!

Sei que depois de tudo isso, depois do policial sugerir que a gente estava desacatando-o e de todas as besteiras que tivemos que ouvir, ao chegar na delegacia e conseguir contatar nossos pais, ainda ouvimos que três mulheres sozinhas na rua a noite estão pedindo pra ser assaltadas, ou coisa pior. Ouvimos isso, inclusive, de nossos pais. Foi simplesmente humilhante. E sabe qual foi a primeira coisa que pensei quando nos abordaram pra o assalto? “Pelo menos eu estou de calça”, e no segundo seguinte fiquei com nojo do meu pensamento.