Graças a essa e outras páginas posso dizer que hoje tenho forças – 1816

1816 – Oi! Hoje estou aqui, não para contar mais um triste caso de assédio, mas para agradecer. Eu preciso de um espaço para isso, e essa página é sem dúvidas o mais adequado. Graças a essa e outras páginas posso dizer que hoje tenho forças, descobri pela internet que não estou sozinha. Não estou sozinha quando me revolto com uma propaganda machista, não estou sozinha quando tremo de raiva e indignação com assédios que sofro ou vejo qualquer outra mulher sofrer, não estou sozinha quando fico desacreditada ao ver mulheres serem culpadas por qualquer agressão que tenham sofrido. Eu costumava chorar sozinha, costumava desacreditar na humanidade, costumava querer morrer ao ver e sofrer com certas coisas e pensar que nunca nada iria mudar… Mas graças a essa e outras páginas sobrevivi, voltei a acreditar, ganhei forças, aprendi muito, me soltei de algumas amarras, larguei alguns preconceitos, me libertei! Hoje enxergo como minha igual qualquer mulher, descobri que não sou melhor do que a que está nesse exato momento em uma esquina qualquer, vendendo o corpo; descobri que somos todas iguais, que todas nós sofremos simplesmente por sermos mulheres! Minha vida mudou literalmente depois de vocês, perdi amigos (na verdade estou melhor sem eles) virei chata, não acho mais graça em certas piadas, aprendi a contar exclusivamente COMIGO, comecei a acreditar em mim, me enxergo capaz, de tudo! Não me preocupo mais com o que pensam sobre mim, vivo sem medo, aprendi a revidar, a não me envergonhar dos abusos que sofri; tomei coragem para revelar alguns deles, já me sinto forte para encarar a vida de frente. Descobri que o meu medo de ser julgada era maior do que o machismo que me julgava; perdi o medo, e perdendo ele, nada mais me assustou. Estou cada vez mais próxima daquilo que muitos chamam de feminismo radical, tenho consciência de que isso de feminismo radical não existe, radical para esses muito é mulher querer viver, porque é isso que todas queremos – viver; porque não vivemos ainda, somos privadas de tudo o tempo todo, e isso não é viver! Sabe, parece absurdo, mas algum tempo atrás, apesar de minhas revoltas com abusos, de me incomodar com muitas atitudes machistas, eu não entendia, não tinha a mínima noção de absolutamente nada quando o assunto era “direito ao corpo”. Cheguei a pensar se era possível existir estupro dento de um casamento, eu achava que não, e o mesmo pensava no caso de prostituta.  Triste, mas eu não compreendia…  Mas é que somos criadas para acreditar que somos propriedade dos homens. É um absurdo mas muitas ainda pensam assim! Eu não, eu aprendi, eu mudei. Me machucaram muito, abusaram de mim quase minha vida toda, em casa… na rua… Mas eu sobrevivi. Ainda dói, mas junto com todas as outras me sinto forte; graças a vocês, tiro de minhas cicatrizes força, e de cada lembrança ruim, vontade, e a cada relato que leio, coragem! E com essas três coisas juntas, nada mais pode me ferir! Somos todas sobreviventes, e pode parecer que não, mas quando cada uma de nós solta um grito em forma de depoimento postado nessa página, salvamos vidas! OBRIGADA!