Machismo na Unicamp [2] – 821

821 – “Ultimamente, com essas paginas de facebook, andam surgindo muitos depoimentos de pessoas da minha faculdade a respeito de desrespeito e machismo…se vcs puderem compartilhar, estou mandando depoimentos feitos na pagina machismo na unicamp sobre a medicina unicamp…ouço essas histórias e gostaria de poder fazer algo que não fosse só me indignar! obrigada! (2)”Durante a Copa Calo, presenciei uma cena bizarra (dentre tantas outras que persistem na memória, juntinho às boas lembranças): estávamos na arquibancada de um jogo qualquer, eu, um menino e mais duas meninas da nossa turma que não me recordo. X chegou com a sua consciência alterada sei lá por que substância e queria de todo jeito que nós nos levantássemos e mostrássemos nosso “amor pela faculdade”. Como de praxe, ficou enchendo o saco. E como não adiantaria argumentar com alguém de pouca racionalidade, acabamos por levantar para que ele parasse de encher o saco. Uma das meninas não levantou. Isso foi o suficiente para que ele levantasse o kilt, colocando seu pinto seboso de quem não tomava banho há alguns dias no rosto da mesma. Ninguém me contou, não li em lugar nenhum e, se a menina da nossa turma que sofreu essa agressão se sentir à vontade, pode confirmar. Estou dizendo isso porque fiquei sabendo – aí sim é passível de confirmação – que mais um caso de agressão aconteceu durante a Intermed envolvendo X e calouras. Obviamente, esse não foi o único incidente durante a Intermed, diversos outros casos de homofobia, misoginia, agressão física, agressão moral e tantos outros foram relatados Facebook afora. É triste ver num evento que deveria pregar valores comuns ao esporte de verdade, como a camaradagem, a compaixão, o respeito mútuo, casos como esses. E por que estou ressaltando esse caso? Porque são nossas colegas de turma, pessoas que convivem conosco diariamente e que, espero eu, convivam, pelo menos, por mais alguns anos. A violência contra mulher está mais perto do que podemos imaginar. Até quando seremos coniventes com situações como essas? Até quando a faculdade e a universidade fecharão os olhos e fingirão que nada acontece? Até quando o desrespeito e a opressão serão tidos como normal? Chega de oba oba, chega de fechar os olhos para o que realmente importa e comemorar por algo que é desprezível. Gostaria muito de saber o que realmente aconteceu, ainda não sei quais foram as cinco meninas da nossa turma envolvidas. Só quero que saibam que têm o meu total apoio para o que quer que desejem fazer, inclusive se precisarem de testemunhas para uma denúncia.”

“Nos últimos dias, fui massacrada com a magnitude e crueldade do machismo presente na minha faculdade.
Um aluno, outrora querido, sempre foi tema de brincadeiras envolvendo o mote “estupro”. Como parecia realmente ser apenas uma brincadeira, por mais que estúpida e de péssimo gosto, todos riam. “Cuidado, meninas, Fulano está chegando!”, “olha o estuprinho do Fulano!”, entre outras delicadezas. Aí, Fulano, por natureza ou por influência, sob o efeito do álcool e da tolerância, acabou cometendo o prenunciado abuso.
A garota e suas amigas, profundamente abaladas, se retiram. Alguns colegas, se por um lado, revoltam-se e jogam palavras de repúdio ao vento, por outro não tomam nenhuma atitude real. Outros muitos acham que “não foi nada”, que “ela pode estar mentindo, não tem provas”, que “imagina, Fulano é tão legal, ele jamais faria isso”, que “é porque ele estava tão bêbado, coitado”, que “também, com aquele shortinho”, entre outros drops de sabedoria masculina, num crescente escancarado.
Alguém com voz de liderança dentre os tão honrados machos, maneja a crise: “melhor abafar o caso, não vamos arrumar problema pra ninguém”. Afinal, existiam coisas mais importantes para lidar naquele momento… A festa tinha que continuar, o amor pela faculdade tinha que prevalecer. Quem era aquela garota e seu sofrimento para tentar ter mais valor que tantas coisas importantes? E a festa continua.
Horas depois, com o espalhar do ocorrido, um bate boca revoltado começa. As lideranças femininas bradam com indignação que Fulano tem que ser expulso. Outras meninas exaltadas passam a revelar, “não foi a primeira vez!”, “ele faz esse tipo de coisa sempre e todo mundo aceita!”, “ele sempre passa a mão na bunda de todas!”, “Ciclano faz a mesma coisa!”. A tolerância e a omissão latente por tantos anos sobre o assunto passa a ser cada vez mais evidente. Os amigos de Fulano, devidamente uniformizados, tentam apaziguar… “Não é justo expulsar o cara”, “vai fazer ele perder a festa?”, “tem que esclarecer as coisas antes de tudo”, “vamos conversar cadê a garota?, temos todos que ouvir dela, senão não é verdade”.
Fulano não aparece e os ânimos se acalmam. Um tempo depois, lá está ele, com sua cerveja e sua cara lavada, passeando indiferente aos olhares de todos. E a festa continua.
Algumas meninas, em outro momento indignadas com Fulano, começam uma nova brincadeira: chacoalhar e passar na cara de todos um celular com a foto da vagina de alguma jovem rival que, por descuido ou despeito, foi divulgada na internet. “Olha essa biscate!”, “que vadia! essa buceta murcha!”, daí para baixo. Até músicas foram compostas para a protagonista. Todos riem. E a festa continua.
Em um momento de conversa séria acerca do futuro da faculdade, um respeitado veterano discursa diante de uma platéia atenta. Entre as pérolas “…aquela vagabunda…”, “…agora os homens que carregam a faculdade… agora é faculdade das putas…”, ” …mostramos que aqui tem muito PINTO!”. Mostraram mesmo.
Em retrospectiva, começamos a perceber quantas vezes situações parecidas ou igualmente machistas e asquerosas já ocorreram impunemente nesses anos de faculdade. Quem permitiu isso? E com pouco raciocínio se percebe o óbvio. Tod@s permitimos. E com indiferença e omissão, perpetuamos. Afinal, fomos educados para isso na vida, a faculdade é apenas mais uma aula…
Um misto de vergonha, revolta, nojo e impotência toma conta de mim.
Devo parar de frequentar os eventos sociais para não me sentir mais um lixo nesse meio? Mas isso não é mais uma omissão? Como mudar, então?
Como sair desse ciclo vicioso? Até quando?
E a festa continua…”