Machismo na Unicamp – 812

812 – “Ultimamente, com essas paginas de facebook, andam surgindo muitos depoimentos de pessoas da minha faculdade a respeito de desrespeito e machismo…se vcs puderem compartilhar, estou mandando depoimentos feitos na pagina machismo na unicamp sobre a medicina unicamp…ouço essas histórias e gostaria de poder fazer algo que não fosse só me indignar! obrigada! [1]

“E quando entrei na Gloriosa Medicina Unicamp não sabia como às regras e “tradições” funcionavam. Achei interessante e até engraçado um grupo de meninos que usavam uma espécie de KILT e perguntei o significado. A resposta? com esse kilt fica mais fácil comer as calouras. Essa e a tradicao que agora esta sendo desmascarada perante todos”

“Aconteceu há alguns anos atrás. Eu era caloura fui na Intermed. Queria aproveitar tudo que a maravilhosa Unicamp me oferecia, vaga conquistada com tanto suor e esforço. Sonhava em fazer grandes amigos, era o que tinham me prometido, nas festas e nos jogos você será muito feliz. Estava lá, no alojamento, sentada num quarto com colchões com alguns colegas do meu ano. Entraram 3 veteranos com vestimentas típicas de um grupo da minha faculdade e 2 veteranas atrás deles, observando. Eles anunciaram “Hora de passar visita!”. Era uma brincadeira que eles faziam com os calouros quando eles estavam deitados, acordando, simulando a visita que o médico faz ao seu paciente na enfermaria pela manhã para avaliar sua saúde. Eu já tinha visto isso acontecer. Eles me escolheram dessa vez. “Você, gestante!” e me empurraram no colchão. Eu caí deitada e me sentei de novo, dizendo “Não, não quero”. Eles me empurraram de novo “Hora da visita”, eu caí de novo, e me sentei de novo, dizendo “Não”. Eles me empurraram mais uma vez, os três em torno do meu colchão, os outros observando, “Vamos, é uma brincadeira tradicional”, e jogaram um agasalho grande sobre as minha pernas, e dobraram minhas pernas, e levantaram minha blusa e minha camiseta expondo minha barriga. Um deles começou a apalpar a minha barriga, dizendo “Batimentos feitais tanto, posição da cabeça do feto tal”. Minha barriga, que eu tinha vergonha, que eu escondia até do meu namorado. O outro colocou a mão e o braço entre as minha pernas, no vão escondido pelo agasalho, e começou a narrar “Toque vaginal! Hummm 3 cm de dilatação, 4cm de dilatação …”. Ele não estava me tocando. Ele não estava nem encostando em mim. Mas quem sabia disso? Só eu e ele, porque para todos era o que parecia, era essa a simulação, então eu me senti invadida, tocada, como se isso estivesse acontecendo de verdade. E eu sabia que o próximo passo era “Agora chegou a hora do parto” e eles iam colocar um dos meus colegas entre as minha pernas fingindo ser um bebê gigante e grotesco, eu iria ter que fingir e entreter todos com as dores do parto. Eu falei “Chega!!!” e me sentei de novo, empurrei os caras. Eu queria chorar, eu não conseguia falar, ninguém sabia o que dizer, alguma coisa muito errada tinha acabado de acontecer, meus colegas não me olhavam nos olhos, todos fixando no chão. Um dos caras falou “Calma, é só uma brincadeira, a gente não faz se você não quiser (?)”. Uma das veteranas me ofereceu uma cerveja. Dois dos caras vazaram, e o outro, alguns minutos depois me ofereceu um pirulito (é sério) e falou “Vamos para a festa daqui a pouco, vai ser legal”. Percebi que eles estavam com medo, os veteranos e veteranas, por que eles estavam me tratando bem demais quando tinham me tratado igual lixo aquela semana toda. Saquei que, talvez, aquilo fosse merecedor de denúncia e eles tinham percebido. Eu fui embora no dia seguinte, e nunca soube o que fazer com isso. Sinto raiva, muita raiva de todos esses caras e seus amigos brincalhões. Me senti culpada por ter baixado a guarda e não ter saído da situação antes que ela acontecesse. Senti abandono do meus colegas que estavam com medo também. Hoje, muitos anos depois, sinto raiva ainda. Hoje, se entendesse o que eu entendo agora, teria denunciado na polícia. Por assedio moral, sexual, o que fosse. Isso não me deixou hematomas, sêmen, arranhões nem fraturas. Isso não envolveu xingamentos como “vadia”, “puta” ou “vagabunda”. A violência psicológica é assim. Aconteceu tudo em menos de 3 minutos, há muitos anos atrás. Hoje, esses caras são todos médicos.”