“mas você deu a liberdade pra isso acontecer” – 1211

1211 – Eu geralmente bloqueio minhas memórias ruins, então quando sofri um abuso quando pequena eu bloqueei totalmente, mesmo não sabendo 100% o que significava. Só fui lembrar desses casos quando comecei a me interessar pela causa feminista. Mesmo assim, não contei pra minha mãe. Só pra três dos meus amigos mais próximos, que eu sabia que não iam me julgar de forma alguma.

Eu não faço ideia de que idade tinha. Talvez uns sete. Em uma espécie de sitio que eu costumava ir com a minha família tinha um homem que quando pegava crianças no colo, fosse para cumprimentar ou brincar, costumava passar a mão em nossas genitálias. Eu achava muito estranho mas não sabia exatamente o que tinha de errado, então nunca comentei nada.

Quando eu devia ter uns 8 ou 9, um primo meu uma vez me puxou à força pro colo dele, de costas pra ele, e começou a impulsionar o quadril contra o meu, no quarto da minha vó. Gritei “VÓ!!!” e ele me soltou na hora. Ele devia ser uns 5 anos mais velho que eu.

Mais ou menos na mesma época, meus avós e uma parte da minha família costumavam orar e ler o livro sagrado um certo dia toda semana, e eu e meu primo (irmão irmão mais novo do primo do caso anterior), crianças e nada interessadas em religião, ficávamos no quarto, com a porta fechada, pra não incomodar os adultos. Acontece que meu vô assinava canais pornô, e meu primo aproveitava a hora livre de adultos pra assistir no mudo, comigo lá. Eu não me importava muito, achava curioso e engraçado. Sabia do que se tratava pois tive educação sexual muito cedo, mas não me afetava realmente. O que me afetava era quando meu primo pedia que eu imitasse a TV. Sempre ameacei gritar pela minha vó, então nada nunca aconteceu, ainda bem.

Quando eu tinha 16 anos, foi diferente. Pra algumas pessoas (minha mãe, por exemplo), seria culpa minha. Comecei a trabalhar. Não quero dizer em qual ramo pois meu chefe é bem conhecido no que faz. Era ele, um ajudante e eu. Eu gosto muito de pessoas estranhas, fora dos padrões da sociedade, porque geralmente me identifico com elas. o X é um homem muito estranho. Algumas décadas mais velho que eu, foi amigável comigo quando cheguei pra trabalhar lá. Ele é geralmente muito antisocial e frio com seus clientes, mas como comigo não era, virei muito amiga dele. Eu sou muito fácil de se conversar, e com meus amigos sou muito próxima, até fisicamente. Adoro abraços e cafunés. Não achei que precisava ser diferente com ele, porque ele (ainda) não havia me desrespeitado e eu simplesmente lidava assim com todo mundo, além de ser assumidamente homossexual e pensar que ele respeitaria meu espaço por isso. Não. Com o passar do tempo ele pedia pra eu fazer carinhos nele – como cafunés. Não importava se eu não queria fazer. Carinho nas costas, massagens, deitar no colo dele, deixar ele deitar no meu. Eu estava acostumada a isso então no começo não achava ruim. Mas a partir do momento em que eu não queria fazer algo e ele começou a fazer chantagem emocional eu passei a não gostar. Era sempre “mas você não gosta de mim? Não diz que sou um grande amigo? Então me faça esse agrado”. O “você está desconsiderando meus sentimentos por você” veio depois de ele confessar ter desejo por mim. Eu obviamente não queria ser despedida do meu primeiro emprego. Levava tudo numa boa, mandava ele sossegar (eu tinha essa liberdade com ele, de “levantar a voz” mesmo ele sendo meu chefe), ficar na dele, que nunca ia rolar, que eu não gostava de homem, que eu não queria, que pra mim ele era só um amigo.

Ele passou a criticar o fato de que eu dormia na casa de amigos homens, a insinuar que porque eu dormia na mesma cama que um amigo homem heterossexual, a gente transava (mentira, sempre dormi na mesma cama que amigos meus por falta de espaço e todos eles me respeitavam muito mais que X). Exigia que eu não ~desse liberdade pros meus amigos. Queria me dominar, totalmente. Passei a ficar com cada vez mais receio de contato físico com ele e cada vez menos vontade de ir trabalhar. Ele sentava e me fazia ficar entre as pernas dele, por exemplo, e isso era algo que eu não suportava. E ele ainda me fazia sentir mal por não gostar.

Um dia, que eu nem lembro qual, começou a insistência por um beijo. “Só pra me agradar! Você não diz que sou seu amigo e que você se importa comigo? Sempre faço de tudo pra te agradar, por que você não faz isso por mim?”, e isso aconteceu por muitas semanas, até eu não aguentar mais e ceder, completamente a contragosto. Duas vezes, e sentindo um nojo imenso. Não falei isso pra ele, afinal, não queria magoá-lo, idiota como sempre fui. Depois disso ele veio com um papo de uma fantasia que tinha de eu mamar uma mamadeira de água na frente dele. Sim, isso mesmo. Fiquei indignada, achei graça, fiquei assustada. Tudo junto. Eu não soube reagir a isso. A mesma forma de chantagem que ele usou com o beijo, ele usou com isso até eu não suportar mais e fazer o que ele queria. Ele me fez deitar no colo dele como bebê e beber água na chuquinha, enquanto ele acariciava meu cabelo. Eu senti muita vontade de chorar e era completamente óbvio que eu estava odiando aquilo. E ele com um sorrisão no rosto. Foi extremamente humilhante, principalmente quando ele queria me forçar a continuar e eu gritava pra ele parar, e isso no ambiente de trabalho, numa sala fechada, em que clientes e o ajudante estavam rindo dos meus gritos, provavelmente pensando que eu estava fazendo algo 100% sexual com ele (como todos pensavam quando eu trabalhava lá, porque ele estava sempre me abraçando e me acariciando, com ou sem clientes no local). Eu me senti extremamente violada. Não tenho coragem de contar isso pras pessoas, e toda vez que lembro me embrulha o estômago.

As piadinhas sexuais comigo e a indignação por eu não rir delas, a insistência para que eu dormisse na casa dele e as brigas recorrentes do fato de que, na cabeça dele, se eu dizia não, era porque eu era fria e sem consideração, foram a gota d’água pra eu sair de lá, deixando pra trás meu sonho de trabalhar nesse ramo num local tão conhecido com alguém tão experiente. Faz dois anos e ele ainda corre atrás de mim, pedindo para eu ve-lo na casa dele, MORAR com ele, com a desculpa de que eu não tenho condições financeiras e ele pode me ajudar (não tenho mesmo, mas não aceito esse tipo de ajuda, não), e me perguntando se não gosto mais dele. Estou pronta pra dar um basta nisso, já. Porém ainda tenho medo deste tipo de depoimento meu cair nas mãos erradas e ir parar com ele. Mas preciso soltar isso.

O mais assustador é que muitas pessoas me diriam “mas você deu a liberdade pra isso acontecer”. Não sei se dei mesmo. Sempre achei que não, que o tipo de liberdade que eu dei era diferente desse. Isso me causa uma terrível angústia. Não sei quando vai passar, mas espero que com os desabafos sobre que ando fazendo cada vez mais eu passe a me sentir menos humilhada, e que a mesma coisa aconteça com mulheres que passaram pelo mesmo e que escolheram compartilhar por aqui. Obrigada pelo espaço.