Mesmo com o coração na boca, eu revidei – 831

831 – “Pequena ‘vitória’ do dia:Passando por uma rua um pouco movimentada de um bairro residencial por volta das 14h, de longe avisto um cara de bicicleta vindo em direção contrária falando alguma coisa com uma moça que anda um pouco à frente de mim. Já me preparei, pois sabia que a próxima a ouvir os despautérios seria eu. Cerrei os punhos, fechei a cara e repassei o discurso que sempre ensaio dizer numa situação dessas. Ele passou por mim e disse algo. Não entendi direito e como ele ia na direção contrária pensei ‘Ufa. Passou. Não entendi. Não vou ficar remoendo isso’. Só que o infeliz deu a volta na rua e retornou! Não satisfeito porque ele sabia que eu não tinha ouvido, ele passou novamente do meu lado e soltou: ‘Qui trabaiá qui nada, eu vou é tocar uma punh…’ – Antes de ele completar a frase eu gritei a plenos pulmões: ‘VAI SE FODER, SEU IDIOTA!’ pra que todo mundo que estava passando pela rua escutasse. Ele fez cara de susto, pedalou mais rápido e dobrou a rua. Eu apertei o passo, alcançando a moça com quem ele tinha mexido uns minutos antes. Ao passar por ela sorri.

Mesmo com o coração na boca, eu revidei.
Mesmo com medo de que ele viesse atrás de mim. Corri pro centro da cidade, passei por outra rota, que não a que tinha planejado, pra não seguir em linha reta , pra ele não me avistar de longe.
A verdade é que eu queria ir atrás daquele imbecil, descobrir onde ele trabalha, fazê-lo perder o emprego. Ou no mínimo derrubá-lo da bicicleta, chutar aquela cara estúpida. Qualquer coisa que lave de mim essa sensação de impotência.
Não é a primeira vez que respondo, mas sempre, sempre tremo de medo, gaguejo, fico na iminência de cair no choro, e não consigo proferir o tal discurso ensaiado. Pior que depois tenho pesadelos de que estou na mesma rua, de que o cara me segura e não tenho forças para fugir nem reagir.”