Meu avô abusava de mim; eu fingia que estava dormindo – 1004

1004 – Olá, achei a iniciativa da página muito boa. Dá para mostrar às pessoas que o assédio e abusos acontecem de verdade, que não é vitimismo de feminista.

Gostaria de deixar também meus relatos, e como eles são pesados, gostaria que fosse postado de forma anônima.

Bem, só pra começar, fui abusada sexualmente pelo meu avô dos 5 aos 10 anos de idade. Ele não me estuprou, não usou de violência física comigo, mas como minha mãe se preocupava muito porque passava muito tempo nas mãos das escolinhas ou perueiros, ela me ensinou sobre os órgãos sexuais e me alertou do perigo dos pedófilos. Disse que eu deveria falar pra ela se alguém fizesse algo comigo. Já tinha acontecido. Eu sabia o que estava acontecendo comigo. Eu não falei. Ela olhava nos meus olhos e perguntava se estava tudo bem, e eu mentia. Amava meu avô. Ele era uma pessoa acima de qualquer suspeita: pacífico, nunca tinha brigado com a minha vó, gostava de cuidar de plantas, parecia um monge. Ou ninguém acreditaria em mim ou eu destruiria uma família que parecia ser perfeita. Me calei.

Durante os abusos, a única maneira que eu tinha de me defender era fingir que estava dormindo. Ele passava a mão, tirava minhas roupas, simulava um ato sexual, se masturbava, ligava a tv no canal erótico. Mas fingir que estava dormindo me livrava de ter que fazer o que ele pedia – um exemplo: beijar seu pênis. Com 9, 10 anos o corpo começou a mudar e os abusos mais intensos. Tive medo de ser estuprada, de ele resolver usar a violência que nunca tinha usado. Eu era grande, ele velho e baixinho. Comecei a me defender sozinha. Evitava ficar por perto e se ele vinha me esfregar o empurrava, chutava suas pernas, sempre com medo de uma possível violência. Daí em diante, ele passou a esfregar os pés no meio das minhas pernas por baixo da mesa. Eu respondia com chutes, ninguém percebia.

Com 12 anos, tive uma briga com a minha mãe, por causa das minhas roupas. Ela disse que era perigoso andar na rua daquele jeito, com as costas de fora, com mini saias (que nem eram tão curtas) e que eu não sabia o que um homem era capaz de fazer por sexo. Eu gritei que sabia sim, contei o que aconteceu durante tanto tempo e ficamos lá chorando. Para ela tb era muito dolorido saber que o próprio pai fez isso comigo. Minha priminha tinha 2 anos, e nos preocupamos com ela. Minha mãe teve uma conversa com meu avô. Disse que se ele encostasse nela ela o denunciaria. Ele garantiu que nunca faria isso.

Durante 3 meses ele ficou cabisbaixo, não comia, não falava, todo mundo reparou. Um dia, quando eu estava na cozinha da casa da minha vó ele foi até lá. Chorando se ajoelhou na minha frente e me pediu perdão. Eu disse que perdoava, abracei ele e passou.

Pouco tempo atrás, o irmão dele foi descoberto abusando de dois priminhos meus. Não houve denúncia, apenas mantiveram eles longe do meu tio-avô. Em um mês ele morreu de cirrose. Na reunião de família, todos falando muito mal dele pelos seus atos, meu vô, que nunca levantava a voz, falou: “Não julguem o ….. porque vocês não sabem o que ele passou.” Para mim, ficou óbvio. Os dois, que eram os irmãos mais velhos, na infância vendiam doces que minha bisavó fazia na rua. É óbvio que foram molestados, e a pedofilia dos irmãos foi uma sequela. Nesse dia, o perdoei de verdade.

Mas não é aí que acaba a história. Com 12 anos dei meus primeiros beijinhos. Na escola, me difamaram, dizendo que eu ia dar pro menino com quem troquei uns 2 beijos. Logo em seguida, um outro namoradinho pegou a senha do meu orkut e do msn e fez uma espécie de porn revenge sem fotos minhas, só pq não tinha. Isso me rendeu colegas me deixando recados na minha mesa perguntando quanto eu cobrava, nenhuma amiga e olhares julgadores/maliciosos nos corredores durante 2 anos.

Nessa mesma época, com 13 anos, um menino em quem dei uns amassos durante um mês ficou possessivo. Com 14 comecei a namorar com meu atual namorado (hoje tenho 21) e o menino possessivo tentou me agarrar, ameaçou minha mãe, dizendo que a qualquer hora podia entrar na minha casa e me pegar e ela não ia poder fazer nada, e provocou meu namorado para brigas. As ameaças duraram só uma semana, mas ele ficou incomodando meu namorado por 2 anos.

Após 5 anos de pseudo-sossego (cantadas nas ruas são constantes desde meus 10 anos de idade – obs: a primeira vez que mexeram comigo tb foi a primeira vez que andei sozinha, tinha 10 anos, usava o uniforme da escola e o pedreiro me chamou de gostosa ou algo assim), fui passear em um córrego próximo à minha casa com meu namorado. Não tinha ninguém por ali, nós aproveitamos pra namorar um pouco. Do outro lado do córrego (uns 200m de distancia) passou um motoqueiro na rua, que nos vendo, ao invés de continuar seu caminho, parou e ficou olhando. Nos incomodamos e saímos dali.

Passeamos pelas ruas do bairro, resolvemos voltar pelo mesmo caminho, passando nas margens do córrego novamente. O motoqueiro já devia ter ido embora. Quando passamos pelo mesmo ponto onde estávamos namorando vimos: o motoqueiro que viu a gente e mais 3, lá, de plantão, esperando pra ver se via a gente. Nos viram, deram partida e vieram acelerando na nossa direção. Eles foram até duas rotatórias que dão passagem por cima do córrego, querendo nos cercar, não tinha pra onde correr.

No mesmo segundo, um morador abriu a garagem e entramos para nos escondermos. Explicamos o que estava acontecendo e esse vizinho que eu nem conhecia nos ajudou. Seu carro tinha os vidros escurecidos, então não nos viram lá dentro. Víamos os motoqueiros rodando pra lá e pra cá nos procurando, meu namorado estava segurando minha mão com força e tremendo.

O vizinho ligou pra polícia, falou que tinha motoqueiros seguindo um casal no bairro, viu umas das placas e falou. Me deixou na porta da minha casa, fiquei no carro uns 2 minutos esperando os motoqueiros saírem de vista para não saberem onde moro.

Ouvi o barulho do carro da polícia chegando e o barulho das motos indo embora. Algumas horas mais tarde, ouvi o barulho das motos de novo. Estavam me caçando.

Em casa, não falei nada, não contei nada. Engoli o choro. Meu namorado também. Se chorasse, teria que contar o que houve, e se eu contasse o que houve, meu pai diria que é culpa minha. Se contasse pra minha mãe, ela não saberia esconder a cara de preocupação.

Fiquei em estado de choque até a tarde do dia seguinte. Coração acelerado, qualquer barulho de motor me assustava, medo de os estupradores ainda estarem rondando, vigiando.

Quando o choque passou, liguei para o policial que faz ronda no meu bairro, querendo saber se chegaram a ver os motoqueiros, queria saber pelo menos as placas e modelos pra ficar esperta quando estivesse na rua, mas não é ele que estava lá na hora, ele nem ficou sabendo. O descaso com esse tipo de violência é tanto que o colega nem passou pra ele o acontecido (eles sabem de todos os assaltos do bairro, é como se fossem responsáveis pela vigilância da área.)

Perguntei se não era o caso de fazer uma ocorrência, mas ele disse que pra fazer uma ocorrência tinha que ter acontecido um delito (isso não foi uma tentativa de estupro???) e tem que ser contra alguém, que eu deveria ter os números das placas (e na situação de desespero que eu estava dava pra decorar placa?). No final, disse que a região do córrego é um lugar ermo e que eu deveria evitar de andar por ali.

Agora só rezo pra ter a mesma sorte que tive e não topar com eles de novo.