Meu primeiro beijo foi forçado, fiquei traumatizada – 665

665 – “Já desabafei sobre cantadas e assédios aqui. Hoje vou contar uma história um pouco diferente. Pode parecer besteira, mas me machucou e, hoje, sei que é um tipo de violência “legalizado”, banalizado, que desperta gargalhadas e aplausos. Confesso que hesitei muito em contar essa história… no fundo ainda sinto um pouco de vergonha pela minha (falta de) reação, além de algum receio em ser reconhecida, talvez. Mas sempre que leio sobre garotas sendo acuadas em festas e baladas essa lembrança me vem à cabeça, por mais que eu quisesse esquecê-la, e precisava desabafar aqui.  Meu primeiro beijo foi forçado.  Não digo que eu fosse daquelas garotas românticas que idealizavam o primeiro beijo com o “amor da vida” e tudo o mais. Na verdade, nem ligava pra isso, seguia a minha vida, meus estudos… nunca fui de baladas sem fim, mas me divertia. E assim me formei “ainda BV”.   Não ligava, mas meus amigos da faculdade achavam um tanto absurdo. Como assim, eu tinha passado a faculdade “invicta”? Insistiam que eu devia me soltar, relaxar mais, não me prender ao que minha família ia pensar, ao que os outros iam pensar. Mas eu realmente não sentia vontade de ficar com desconhecidos numa balada! Não importava o quão “solta” eu tentasse ficar, eu simplesmente não tinha interesse.   Eu estava totalmente em paz, tranquila, cuidando dos meus estudos e da minha vida pessoal, não estava sofrendo por não ter beijado, mas de tanto meus amigos questionarem cheguei a pensar que fosse algum trauma, algo errado comigo. Que eu realmente estivesse me reprimindo e não estivesse percebendo isso. Acho que somos forçadas a acreditar que sempre precisamos estar em busca de alguém, né? Confesso que eu passei a me sentir pressionada a “me libertar” de uma restrição que de fato não me incomodava… e essa “libertação” passou a ser o verdadeiro incômodo. Era meio constrangedor, até. Você se sentia errada, “carola” (que ridículo, eu já tinha passado da adolescência, ficar preocupada com esse tipo de adjetivo…) e acabava assumindo pra si mesma a “explicação” dos outros. Uma vez, chegaram a tirar no palitinho entre meus amigos homens quem seria “o tal”. Todos riam, eu ria também, mas de nervosa, sei lá. De raiva, até.  Foi numa festa. Eu estava indo embora e me despedindo dos meus amigos com aquele tradicional “beijo na bochecha” (que é mais no ar que na bochecha propriamente dita), abraçando-os porque provavelmente demoraria meses até um eventual próximo encontro. Estava me despedindo do último amigo (pois é, o mesmo do palitinho algumas semanas antes) quando ele (já bastante bêbado) começou a me puxar, buscando os meus lábios. Eu resistia, não queria, mas não tinha coragem de empurrá-lo com muita força ou de machucá-lo. Sei que é estupidez ser educada com quem está forçando a barra, mesmo sendo um amigo por quem você tem algum carinho… mas eu simplesmente não conseguia ser violenta, sei lá.  Antes de ele finalmente conseguir me beijar, pensei ter ouvido ele sussurrar alguma coisa. Não sei se foi algo como “Aproveita a chance” ou algo do tipo, mas acho que bloqueei. Fingi não ter ouvido. Não sei por quê, eu me senti humilhada mas fiquei sem reação. Nunca contei isso pra ninguém (acho que nem ele deve se lembrar), exceto pra uma amiga.  Quando ele conseguiu me beijar, eu desisti. Resolvi que, já que estava acontecendo mesmo, que eu aproveitasse (e foi meio amargo. Queria mesmo apagar aquele sussurro da minha cabeça) a experiência. Não foi tão ruim, até consegui acompanhar, mas foi mecânico demais. Vazio demais.  Quando acabou, meus amigos (e amigas) aplaudiram, vibraram como se fosse um grande evento. Eu sorria (acho que sorria), mas eu queria morrer. Eu me sentia envergonhada, humilhada. Precisava daquilo tudo? Como se eu fosse incapaz de conseguir alguém quando eu de fato quisesse e tivesse de “aproveitar a chance” que um “caridoso amigo” estava me dando? Por mais que eu gostasse daquelas pessoas (e acredito que elas também tivessem muito carinho por mim), eu me sentia ridicularizada. Fui embora praticamente correndo.  Eu me lembro de ter ficado mais de uma hora rolando na cama, mas não era uma eletricidade “boa”. Eu estava repassando a cena na minha cabeça, me lembrando do puxão, do sussurro, do gosto de cerveja (odeio até o cheiro de cerveja, não costumo beber – eu estava sóbria) e nicotina, dos risos e aplausos e me recriminando por não ter empurrado com mais força, não ter gritado “NÃO!”, de ter cedido e correspondido. E ao mesmo tempo tentando esquecer aquilo e dizendo a mim mesma que eu estava levando aquilo a sério demais, que tinha sido só um beijo e eu estava tendo um acesso de carolice e que “não tinha sido tão ruim, afinal”. Que eu tinha correspondido, e portanto não tinha motivo pra me sentir tão… agredida. Eu lembro que ficava agarrando a raiz dos cabelos na cama como se conseguisse simplesmente apagar aquela memória, apagar tudo.  Só dois anos depois, tendo acesso a blogs feministas e a páginas como esta, finalmente compreendi o motivo de me envergonhar tanto daquilo. Eu fui forçada. Eu não queria. Cedi por comodismo, por não querer criar um barraco (ainda mais com um amigo querido), eu me forcei a aproveitar (até hoje essa palavra me dói) um gesto de intimidade forçada.  E essa imposição era vista por todo mundo como algo natural. Eram meus amigos ali e todo mundo achou aquilo ok. Eles viram que eu não queria, que eu resistia, mas acharam o máximo. E eu me senti errada durante DOIS ANOS por ainda sofrer com aquilo, porque achava que eu estava fazendo tempestade em copo d’água. Afinal, todo mundo achava aquilo normal. Fico pensando se eles achavam que minha resistência foi só porque “eu ainda estava me reprimindo” ou se era “só charme”. Se esse meu amigo foi visto como um “herói”. Se eles tinham combinado aquilo.  Eles diziam que depois daquele primeiro beijo eu perderia minhas amarras e passaria a ficar mais vezes, mas nada mudou. Não beijei mais ninguém desde então. Continuo sem vontade de beijar desconhecidos numa balada e confesso que continuo muito ocupada com a minha vida pra ficar preocupada em arrumar alguém. As pessoas parecem ainda não compreender isso, impressionante…  Mesmo relatando isso agora (e quase chorando), ainda fico com a impressão ruim de que estou dramatizando, de que isso não é nada, de que isso nem se compara em gravidade aos “machões” que agarram as garotas pelo braço na balada. Mas sei lá… não é assustador que esse tipo de coisa tenha se tornado tão banal? Mesmo entre amigos? Meu amigo provavelmente já fez aquilo outras vezes. Meus amigos ao redor provavelmente já tinham visto (ou feito, ou passado por) aquilo mais vezes. E isso pra eles é normal.  Fico me perguntando se minhas amigas não se sentem magoadas numa situação dessas ou se já acham ok. Eu não consigo deixar de me sentir magoada. Talvez essa sensação de “normalidade” seja pelo fato de que o cara era meu amigo. Acho que se um desconhecido bêbado me agarrasse, a reação de todo mundo (inclusive minha) seria diferente. Quero dizer, espero que sim. Não gostaria de pensar que esse tipo de gesto esteja banalizado a esse ponto em uma festa.  Eu não odeio e nem desprezo esses meus amigos. Pra falar a verdade, não consigo odiar nem mesmo esse amigo. Mas que ainda sinto uma mágoa e um desconforto… ainda sinto um pouco, sim. Já não é a mesma coisa. Eles podem não ter enxergado aquilo como uma agressão ou desrespeito, mas eu me senti desrespeitada, sim. Mas só consegui me abrir a esse respeito com uma amiga…  Não sei. Fica a sensação desagradável de exagero (aqui no fundo), mas acredito que a situação não seria menos errada só porque ele era meu amigo nem porque foi “só” um beijo. Eu me senti invadida e humilhada. E ainda sinto uma amargura por ter cedido e “correspondido”, mesmo desconfortável.  Hoje acredito que faria diferente. Acho que eu reagiria, que eu não me importaria em empurrá-lo com força, mesmo derrubá-lo. Que eu gritaria “NÃO QUERO, VOCÊ NÃO ME OUVIU?”, da mesma forma como faria com um desconhecido. Hoje sei que não preciso ser educada numa situação dessas, por mais que eu tenha amizade e consideração pela pessoa.  Se eu tivesse essa mentalidade há uns dois, três anos…”