“mexeram com você à toa? Você não fez nada para provocar?” – 1051

1051 – Há mais ou menos um mês estava no terminal de ônibus próximo à minha residência aguardando transporte para ir trabalhar. Quando lá cheguei havia um homem deitado nos bancos que levantou ao me ver e começou a me assediar verbalmente. Fiquei calada, mas em seguida outros três homens vestindo o mesmo uniforme do primeiro ao verem-no mexendo comigo e percebendo que eu ignorava, resolveram me cercar e persistir no assédio. Não tive medo pelo horário e pela quantidade de pessoas na rua, mas fiquei constrangida, e completamente intimidada, um chegou até a pegar no meu cabelo! Irritada e sem ação, caminhei até o ônibus que estava estacionado e perguntei ao motorista qual o horário que o mesmo sairia. Quando ouvi que ainda demoraria 15 minutos, disse que estava dificil esperar sozinha e quis saber se não podia aguardar dentro do ônibus. Foi então que o agradável motorista me disse rindo que “aqueles rapazes não estavam fazendo nada demais e que já que sou bonita não deveria ser tão orgulhosa”. Eu que há muito tempo me considero feminista me vi pela segunda vez no mesmo dia sem reação ao me deparar com o machismo em sua forma mais canalha e pseudo-velada. Resolvi então fazer o trajeto de 2,5 km até meu serviço a pé, e no caminho liguei para o meu namorado no intuito de desabafar. Qual foi minha surpresa quando ao terminar de me ouvir ele diz: “Mas eles mexeram com você assim a toa? Você não fez nada para provocar?”. A pergunta foi tão caricata que até pensei que ele estivesse brincando, mas não estava. Nenhum deles estava brincando e ao mesmo tempo nenhum estava me levando a sério. Nenhum deles se reconhecia em mim, nem demonstrava qualquer empatia, afinal EU que era orgulhosa demais, mal agradecida até, por não reconhecer os elogios que recebia. Sofremos assédio moral todos os dias em todos em lugares e tão recorrentemente estes assédios são banalizados e nós somos penalizadas. Neste dia o meu direito de existir e estar onde quer que esteja sem ser perturbada e constrangida foi ignorado, e eu sei que como aconteceu comigo, outros direitos de outras mulheres são diariamente violados com consequências infinitamente maiores e sempre pelo mesmo algoz, não (só) os 4 trabalhadores assediadores, não (só) o motorista sorridente, não (só) o namorado acusador, mas todos! Todos que coadunam com atitudes cotidianas como essas, todos que fecham os olhos e ignoram, todos que culpabilizam a mulher por ser vitima. As vitimas do machismo são resultado da conivência destes e TODOS nós somos responsáveis!