Minha inocência infantil não possibilitava entender – 747

747 –   [Trigger Warning – Relato de abuso infantil]   Não é apenas verossimilhança

“Mas é preciso ter força

É preciso ter raça 

É preciso ter gana sempre 

Quem traz no corpo a marca  Maria, Maria 

Mistura a dor e a alegria” 

Maria Maria- Mercedes Sosa

Eu tinha aproximadamente 5 anos (desde que me recordo), não sei ao certo a gênese dessa tortura, sei apenas que eu não podia compreender o que se passava, minha inocência infantil não possibilitava entender, tampouco me defender daquele incômodo. Posso imaginar, hoje, como é ser abusada, violentada, por algum desconhecido, toda violência é repulsiva! Mas, posso afirmar, que quando isso vem daqueles aos quais você acreditava que deveriam amar e te defender, o sofrimento é exacerbado e a revolta constante.  Como disse, eu era uma criança quando ele me abusava, ele me apertava em seu colo contra o seu órgão sexual, eu podia senti-lo, queria sair, era desconfortável, mas ele não permitia, usava toda a sua força… eu achava que era carinho! Todas as vezes que conseguia me desvencilhar e corria para algum canto alguém da minha família gritava meu nome, dizia que deveria ter mais respeito e dar atenção, afinal eram meus (prefiro não citar o grau de parentesco nem a categoria). Não podia escolher não visitá-los, eles cuidaram de mim durante minha infância, sua esposa era uma pessoa muito carinhosa, preocupava se comigo, me fazia mimos, eu a amava! Mas não ele! As noites em que eu dormia em sua casa ele fazia questão de deitar ao meu lado, eu tinha medo e ao mesmo tempo nojo. Isso durou até os meus 13 anos! Foi quando ele avançou nas suas ações, ele me mostrou seu órgão sexual (como se eu não soubesse do que se tratava) e disse pra eu pegar, eu me assustei e sai de perto dele que prontamente percebeu minha indignação e se conteve. Pensei durante dias, temerosa, mas eu não podia voltar para a casa dele. Uma noite minha mãe fazia o jantar (lembro como se fosse hoje), eu havia chorado a tarde toda pensando nas conseqüências de contar-lhe, eu cheguei perto dela e disse o que me acontecia há muito tempo, ela chorou muito, ficou em pânico, me abraçou, foi quando eu descobri que ele havia, há alguns anos, feito o mesmo com ela e que o mesmo temor fez com que ela se calasse, a diferença é que eu tinha apenas 13 anos, ela tinha 17 quando ele abusou dela! Ela optou por esquecer o que aconteceu e me afastou dele. Hoje ele tem muitos problemas de saúde, está muito debilitado, eu o visito as vezes, mas ainda dói!  Sabe o que é pior? Meu pai! Infelizmente as inconstâncias da minha vida não terminam aqui. Eu sofro agressão física e moral do meu pai desde que nasci. Ele se auto afirma me espancando por motivos banais ou mesmo sem um motivo qualquer! Minha mãe sempre me disse que eu era culpada, eu nunca entendi porque, comecei a pensar, em um certo momento, que era por existir. Há uma semana ele foi me agredir e minha mãe interferiu sabendo que se ele continuasse iria me matar, ele a agrediu! Sai de casa! Estava acostumada em plenos 19 anos (Pasmem) a essa agressão, mas nunca admitiria que alguém agredisse a minha mãe, mas ele o fez! Quis matá-lo! Não tinha pra onde ir, estava entre voltar pra casa de um agressor ou pedir abrigo a um estuprador! Pedi apoio a alguns amigos que prontamente me atenderam. Agora eu lhes pergunto, caros leitores, como dizer à um agressor que me espanca desde que nasci que fui abusada por alguém próximo? Qual a credibilidade do meu pai para acusá-lo se nunca ao menos me defendeu, ao contrário, eu precisava me defender dele? E minha mãe argumenta que meu pai estava nervoso, com o “sangue quente”, me questiono que argumento coloca o homem na condição de animal instintivo e incontrolável para inocentá-lo da culpa e que transfere a mesma para a vítima?  Hoje, depois disso tudo, só espero que os dias possam nascer sem que eu tenha que olhar nos olhos destes homens, ainda os repudio, quero distância, e meu maior sonho era poder trazer minha mãe e minhas três irmãs para perto de mim, para que eu possa proteger e defender elas do mal pelo qual ninguém me defendeu!”