Minha mãe falou, “Eu não quero flores, eu quero direitos” – 408

408 –    “Eu quero dar um presente para vocês, um presente de mulher para mulheres – de feminista para feministas!  Minha mãe era machista. Era. Hoje ela foi fazer compras num supermercado que nós sempre vamos, relativamente pequeno, onde todos se conhecem praticamente. O gerente veio entregar uma rosa pra ela e outra pra ela dar pra mim. Sabem o que ela disse? “Eu não quero flores, eu quero direitos.” Ao dizer isso, recebeu uma salva de palmas de todas as funcionárias que estavam presentes, até que isso se estendeu a praticamente todo mundo que estava lá dentro. Primeiro todos ficaram surpresos e sem respostas, mas depois, todos concordaram com a minha mãe. Disseram que não tinham isso em suas casas, que diriam isso aos seus maridos também. Ficaram conversando por um tempo, em que minha mãe falou sobre os assédios que sofremos nas ruas, sobre a nossa falta de direitos, sobre a desigualdade presente no dia-a-dia, que às vezes pode ser relativamente benigna mas outras vezes é tão dolorosa. Minha mãe terminou ensinando e inspirando as mulheres e os homens lá dentro a serem feministas, assim como eu a ensinei e inspirei: “Então vocês já sabem, ao receberem ‘Parabéns’ ou flores, digam ‘nós não queremos flores, nós não queremos parabéns, nós queremos direitos.'” Queria dizer que minha mãe era machista. E que ao me contar isso hoje, quando chegou em casa, me contagiou com uma felicidade enorme – com a qual eu espero poder contageá-las também – e me inundou de orgulho. Olha, o caminho foi longo. Mas hoje eu posso dizer que eu inspirei a minha mãe a ser uma mulher melhor. Eu inspirei a minha mãe a me ser, a ser vocês, feministas aqui da página, a ser as feministas que não sabem que são feministas, eu inspirei a minha mãe a ser, assim como eu sou, todas as mulheres juntas.  Em vários relatos aqui eu vejo as meninas chateadas com as mães machistas. Eu também ficava. Como disse, o caminho foi longo. Lotado de confrontos, de conversas, discussões e até brigas, acreditem. Mas não desistam, porque a minha mãe também era machista.   E hoje, dia 8, dia da Mulher, minha mãe, minha feminista preferida, me deu esse presente. O qual, através deste relato, eu espero estar dando à todas vocês também. Espero que, no mínimo, um sorriso assalte o rosto de vocês. E que a fé na humanidade, que em mim se encontrava escassa, pulse forte no peito.  Um presente de mulher para mulheres, de feminista para feministas. O caminho que temos a percorrer é muito longo, nós sabemos bem. Mas nós podemos percorrê-lo de mãos dadas! Não esquecendo, é claro, dos homens feministas – que também são muito bem vindos à nossa ciranda!”  Amanda Benvegnú