Mulheres, reajam! – 1055

1055 – Reajam!

Como muitas outras, eu sempre leio os relatos e nunca dei o meu depoimento. Me identifico muito com essa página porque é algo novo na nossa sociedade, é difícil a gente encontrar um lugar onde as mulheres falam abertamente de seus medos e vitórias.

Desde pequena eu sou assediada na rua. Tenho peitos grandes, bundão, corpão mesmo. Nunca quis ser assim, é natural de mim. Meu corpo começou a se desenvolver quando eu tinha uns 11, 12 anos. De cara já digo que meu pai é super machista e minha mãe tem umas opiniões meio ridículas e submissas a respeito das mulheres. Ela é do tipo “nossa, você vai sair com esse short? tá praticamente pedindo pra chamar atenção”. Não, mãe, não quero chamar atenção. Tá um puta calor, eu não vou sair de calça. Agora eu penso assim, antes, não.

Devo dizer que só tomei coragem mesmo de 2013 pra cá. Ano passado eu fui protagonista de cada barraco no meio da rua que, olha, me ORGULHO de ter feito muito escroto nojento calar a merda da boca.

Quando eu tinha lá os meus 17 anos, comecei a sair mais na rua. Moro em um condomínio meio isolado, minha vida antes disso foi dentro de casa. Eu não estava acostumada com o mundo lá fora. Com 17, entrei num cursinho aqui em São Paulo. Ia e voltava de ônibus todos os dias. Moro em outra cidade, era ônibus intermunicipal, viagem de uma hora e pouquinho. Primeira vez que me senti mal foi quando o cobrador do ônibus olhou pra mim de um modo nojento – o qual, até então, eu desconhecia – e mordeu os lábios. Ele fazia cara de ‘quero te comer’. Não reagi, embora tenha ficado completamente desconfortável e envergonhada. Eu usava um short jeans porque tava um calor dos infernos. Lógico, me culpei. Nessa época eu era virgem, não fazia ideia do que era sexo, não tinha interesse em experimentar ainda. Esperava o momento certo com a pessoa certa. (E aconteceu com o meu atual namorado, estamos juntos há quase três anos, desde essa época do cursinho – agora tenho 20 anos – e, aos 6 meses de namoro, a transa finalmente aconteceu e ele foi um amor, controlou os instintos, foi super cuidadoso, me ouviu em tudo que eu dizia, enfim, foi muito bacana).

Eu só fui apresentada ao feminismo no ano passado quando vídeos de mulheres transando caíram na internet e todo mundo as xingava. Puta, vadia, piranha, vagabunda. Mas eu nunca via um comentário que defendesse a moça e culpasse o cara que divulgou aquilo sem a autorização dela. Comentários do tipo ‘deixou gravar, se fodeu, bem feito’ me desanimavam MUITO. Eu julgava muito as mulheres, era a adolescente machista criada por pais machistas que achava que usar decote era errado, salto alto e saia colada é coisa de puta, mulher tem que se ‘dar ao respeito’, não pode sair dando pra qualquer um por aí, tem que ser santa, tem que tomar cuidado com a reputação, mas ah, os homens podem tudo, porque os homens comandam. No colegial, quando eu tinha meus 15, 16 anos, eu pegava todo mundo. Porque eu queria, eu gostava de beijar na boca, eu curtia beijar os meninos que eu achava bonitos. Fiquei mal falada. Foram dois anos de bullying e cyberbullying sem o apoio dos meus pais, que me culpavam. Eu era uma merda de pessoa, revoltada, sempre irritada por ter que chegar na escola e ter que ouvir ‘vagabunda’ de um colega de classe que TAMBÉM pegava TODO MUNDO e não era julgado por isso porque era homem, e homem pode.

Enfim, muitas coisas mudaram do ano passado ano pra cá. Como eu disse, comecei a levantar a cabeça e fazer muito merdinha calar a boca. O sujeitinho passa e fala um ‘gostosa’, até um IDOSO DE BENGALA já passou por mim e falou ‘chupava todinha’. Gente, que mundo é esse que eu sou obrigada a ouvir essas coisas? Nessa eu não tive reação porque aparentemente era um velhinho frágil. Eu sei que parei no meio da calçada e fiquei olhando até ele sumir de vista com aquele risinho frouxo dele.

Eu já apanhei de um cara dentro do trem. Ele me encoxou, eu mudei de posição quatro vezes e vi que ele ainda estava atrás de mim. Fiz um barraco, porque sou dessas. E olhem, eu estava de calça, camiseta social e sapato. Não mostrava nada do meu corpo, só os braços. Mais uma prova de que a vestimenta não influencia em NADA. Eu tenho que sair PELADA na rua e ninguém nem tem que olhar pra mim. Não tem que falar nada. Tem que me deixar em paz. O cara, quando eu reagi, puxou meu cabelo (olha que escroto). Eu só virei e dei um soco de mão fechada e com toda a minha força no nariz dele, que sangrou e possivelmente tenha quebrado. Dois caras vieram de não sei onde, socaram o infeliz e jogaram ele pra fora do trem quando chegou na próxima estação. E ele ainda falou ‘se eu tô te encoxando você tem que ficar feliz, vagabunda, porque é um elogio ao seu corpo’. ‘Desculpa, meu senhor, do que o senhor me chamou? Vagabunda? Porque eu não gostei de você esfregando esse pinto na minha bunda? Sabe, eu tenho dó de gente como você. Você sabe que isso não daria em nada, só fez isso pra provar sua ‘masculinidade’ pra si mesmo. Sabe por que? POR QUE VOCÊ É UM FRACASSADO INSEGURO E EU TENHO NOJO DE VOCÊ’. Falei mais coisa além disso, só sei que ele foi enxotado pra fora da plataforma pelos guardinhas, que me apoiaram. Muitas mulheres DEFENDERAM o cara e disseram que eu exagerei. Fiquei nervosa, mandei meio mundo tomar no cu e desci do trem espumando de ódio.

Hoje mesmo eu tava vindo pro trabalho e resolvi entrar no supermercado pra comprar a porcaria do meu almoço, tava saindo pra rua e um molequinho de bosta se achou no direito de fazer aquela cara e aquela voz nojenta: “nossa, hein”. Minha reação já é automática. “Nossa, hein, que coisa ridícula! Escroto, quer seu troféu de fracassado?” em alto e bom tom. O moleque ficou tão envergonhado que não sei nem como conseguiu entrar no supermercado com todas aquelas pessoas rindo dele.

Tenho muitas outras histórias. Muitas mesmo. Mas ficam pra outros relatos.

Mulheres, eu tô aqui contando todas essas histórias nesse relato imenso pra dizer pra vocês: REAJAM! Não deixem que os machistas te imponham medo, vulnerabilidade, insegurança! RESPONDAM! HUMILHEM! PASSEM DE CABEÇA ERGUIDA! NÃO DESVIEM DO CAMINHO DE VOCÊS PRA ‘EVITAR’ ASSÉDIO! RE-A-JAM! Se todas nós nos unirmos, não tem pra ninguém. E outra coisa. Eu percebi que os assédios diminuíram agora que eu não passo de cabeça baixa e faço contato visual com qualquer escroto que provavelmente iria dizer algo. Eles ficam calados porque eu esfrego confiança na cara de quem quiser. Quando você se mostra vulnerável, eles vão em cima. LEVANTEM A CABEÇA! Vocês tem o direito de ir e vir sem serem incomodadas por ninguém.