Não quero que falem, não quero que olhem, quero ser invisível -1482

1482 – Lá vou eu de novo enviar outro relato…que inferno!

Precisava ir ao banco, não tinha outra opção. Botei lá meu jeans surrado, meu tênis caindo aos pedaços e um moletom com capuz. É, eu confesso que sabendo que teria que passar por diversas obras no caminho, colocar um capuz me pareceu uma ótima idéia, já que esconderia meu cabelo e talvez eu pudesse passar despercebida.

Eu fui em paz, mas quando voltei passei pela tal obra (a qual já passei por inúmeros aborrecimentos) e um rapaz num sorriso quase doentio me disse oi. Era ~só~ um oi. Eu poderia dizer que era quase um oi inocente se ao dirigir meu olhar pra ele ele não estivesse com aquela cara de cachorro vendo um pedaço de frango. Eu respondi: eu te conheço? E então se seguiram aqueles blablablás sobre “só falei oi, sua sem educação”. Isso se tornou uma discussão e ele passou a me xingar. Eu, já de saco cheio de praticamente não conseguir VIVER sem passar por essas coisas, falei que se ele continuasse bancando o machão que eu ia chamar a polícia. Ele veio na minha direção e eu tirei uma foto não só dele como da camiseta da empresa pra qual ele presta serviços. Ele endoidou e começou a piorar a situação. Chamei a polícia.

Eu realmente não sabia se deveria chamar a polícia. A partir desse ponto eu comecei a questionar a mim mesma. “Deslocar uma viatura que poderia estar socorrendo alguém vítima de um assalto/sequestro não seria imprudência?”, “mas e se eu não chamar a polícia e esse bando de homens (porque toda obra foi parar na calçada pra ver o circo e fazer chacota) me arrastar pra dentro e o pior acontecer?”. Quando ele viu que eu realmente tinha chamado a polícia ele deu um jeito de se esconder, enquanto os colegas ficavam ali me olhando como se eu fosse uma louca.

Esperei por 15 minutos. Nenhuma viatura apareceu. Liguei de novo porque a essa hora, eu não sairia de lá se não estivesse em segurança. Disseram que iam reforçar o pedido. Nada. Liguei de novo e 40 min depois uma viatura finalmente apareceu. Já pararam pra pensar no tanto de coisas que poderia ter me acontecido em 40 min?

Atravessei a rua pra falar com o policial e eu sabia que se rolasse um discurso tipo “mas só foi um oi” ou “mas ele só te elogiou” eu ia surtar. E eu estava muito preocupada porque se eu surtasse eu perderia a razão. Assim que cheguei ao lado do policial, o idiota apareceu e começou a falar. O policial mandou ele aguardar do outro lado. Ele continuou falando e inventando coisas. O policial perdeu a paciência e falou que se ele abrisse a boca novamente o prenderia. Expliquei o que aconteceu e falei que eu só tinha chamado a viatura porque me senti em perigo pra ir embora e não pela discussão em si. Pra minha surpresa, o policial disse que eu deveria chamar de qualquer jeito. Pegou meus documentos, pegou os do cara e perguntou se ele devia algo pra justiça. Consultou e me chamou de canto me explicando o que eu deveria fazer (B.O., processo, etc), além de me informar o nome do cara. Disse que eu podia ir embora e que ele daria uma dura nele que ele nunca mais mexeria comigo e que, se caso acontecesse novamente, pra eu ligar pra polícia novamente. Quantas vezes fossem necessárias.

Eu vim embora. Realmente não sei o que aconteceu lá. Não sei o que foi conversado com o cara, se ele realmente tomou um toco do policial, enfim. Mas sei que andei por duas quadras e a viatura ainda estava lá.

Não sou muito emotiva, mas ao entrar em casa eu desabei. Passei uma semana sem sair de casa por causa de outro episódio e no primeiro dia que boto o nariz na rua passo raiva. Estou cansada, não aguento mais. Não me importa se é “oi”, se é “oi, gata”, se é “oi, gostosa” ou “oi, baranga”. Não quero que falem comigo, não quero que olhem pra mim, quero ser invisível. Só isso.