não sou mal educada por xingar o assedador – 1145

1145 – Apenas mais um assédio verbal no meio da praça durante o dia. Já faz muito anos que respondo de volta à assédios verbais. Respondi a assédios verbais durante a maior parte de minha vida, mas confesso que estou cada vez com menos paciência. Minha paciência está cada vez MENOR com o fato de que a maioria dos homens sente o direito de manifestar seu próprio desejo e opinião sobre o corpo da mulher que passa à sua frente, da mulher da revista, da mulher na televisão, da namorada do seu amigo, de QUALQUER mulher. Minha indignação com a violência cotidiana que sofrem todas as mulheres do MUNDO, com assédios verbais, sexuais, psicológicos, morais, está cada vez maior. Pois bem, não tenho mais nenhuma paciência para “apenas mais um assédio verbal”. Porque, nós, mulheres, nos acostumamos a ignorar esses assédios, para não nos estressar mais. Porém, ignorar, apenas aumenta a sensação que os homens tem de poder sobre nossos próprios corpos! De poder falar quando bem entendem o que pensam de nossos corpos. Ainda, para algumas, ignorar talvez diminua o estresse na hora. Para outras, ficar calada diante de um situação de agressão verbal apenas piora, pois a violência teve que ser aceita e nem ao menos se pôde manifestar sobre isso.

Eu estava com uma amiga na praça do centro da cidade, perto das escadas da catedral, era de dia e, antes do nosso compromisso, paramos para tomar sorvete. Em pé, paradas, conversando, vindo de trás passa um senhor, não sei se morador de rua ou simplesmente alguém simples, ou que trabalhava na rua. Nem consigo lembrar exatamente o que ele falou, mas foi qualquer comentário idiota sobre meu corpo, ou sobre o que eu estava vestindo, ou sobre o seu desejo sobre determinada parte do meu corpo. Não precisei de meio segundo para instantaneamente gritar, eu diria quase berrar “CALA A BOCA!”. Ele continua sua passagem e vai se afastando, abismado. Eu continuo berrando com os pulmões cheios e bem determinada olhando para ele “VÁ SE FODER!”. Continuei “Vai falar isso pra sua mãe!” (Depois de me arrependi de ter colocado a mãe dele no meio, afinal, o que essa mulher tinha a ver com a estória?). Ele vai falando meio baixo e se encolhendo, enquanto todos ao redor olhavam a cena, mesmo os que estavam longe, tamanha foi a altura do grito, e responde “Que mal educada”. Eu grito cada vez alto “Mal educado é você! Não preciso ouvir isso no meio da rua!!!” Ele vai se afastando cada vez mais, resmungando “mal educada” e cruza para o outro lado, enquanto um morador de rua que estava acompanhando a cena, começa a tirar um sarro com sua cara, rindo e falando alto com ele. Ainda lembro de ter olhado para umas pessoas religiosas (homens e mulheres) que estavam lá no momento e pareciam assustados com minha reação. O mais hilário de tudo, é que as pessoas estranharam a MINHA reação, mas, não estranhariam se apenas ouvissem o assédio verbal dele! Pois é tão aceito na sociedade brasileira, que ninguém mais se espanta com isso!

Não foi das piores coisas que ouvi, mas foi a melhor reação que já tive. Não hesitei nem um segundo para responder, gritei bem alto, firme, me fiz ouvida pela praça e senti a maior confiança do mundo em estar manifestando minha indignação com algo que TODOS deveriam se indignar todos os dias: o assédio verbal às mulheres. Me senti forte naquele dia. E senti que naquele momento a justiça se fez: eu envergonhei aquele homem em praça pública. Quem estava certa era eu e era ele que estava errado em me assediar verbalmente. Eu não sou mal educada em não aceitar um assédio, o mal educado é ele em me assediar! Eu deixei aquilo claro para todos naquele dia. Assédio verbal é violência. E todos deveriam ficar MUITO BRAVOS com isso todos os dias!